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Belo Monte, as hidrelétricas, os mortos de Chernobyl e os ecologistas que gritam "lobo" - Parte IV

Prioridades e investimentos

Para além das consequências políticas, o principal efeito do "apagão", no entanto, foi reacender o debate sobre a necessidade da retomada de investimentos no sistema elétrico, contemplando três vertentes importantes: a) a discussão da necessidade de implantar fontes alternativas de geração como forma de superar as incertezas de um sistema baseado quase que exclusivamente na matriz hidrelétrica, com sua natural dependência dos bons humores da metereologia; b) a necessidade de investimentos maciços em linhas de transmissão, que permitem otimizar o uso integrado das reservas de água e da potência instalada nas diversas regiões do País; c) a retomada dos investimentos na nova fronteira da exploração do potencial hidrelétrico no Brasil: os rios da bacia Amazônica com um enorme potencial ainda inexplorado. Todos essas três vertentes foram contempladas a partir do final do governo FHC e, principalmente, no governo Lula.

No quesito de alternativas de geração, retomou-se a construção de grandes e médias usinas termelétricas baseadas em gás natural, carvão mineral ou em derivados de petróleo (diesel e óleo combustível), que estavam praticamente esquecidas desde os anos 1960. Mas fáceis e rápidas de construir, as termelétricas tem os inconvenientes de serem poluidoras e usar combustíveis fósseis, além do custo operacional e de geração bem mais alto que o das hidrelétricas. Por isso, muitas delas precisam ser indenizadas para ficar paradas durante meses a fio, operando apenas na eventualidade de uma crise na disponibilidade de água nas represas – o que contribui para aumentar ainda mais o custo dessa energia suplementar.

 

Paralelamente, há também uma grande aposta do governo no incremento da participação das chamadas "pequenas centrais hidrelétricas" (PCEs), usinas com capacidade inferior a 30 MW. Além de propiciar o aproveitamento de uma enorme quantidade de recursos hídricos de menor monta, essas usinas apresentam uma série de vantagens: custo mais acessível, menores prazos de implementação e maturação do investimento, facilidades na legislação e menor impacto sócio-ambiental. Viabilizam-se graças à disposição das concessionárias de energia elétrica de comprar o excedente de energia gerada por autoprodutores, além de disponibilizarem o acesso às suas linhas de transmissão a longa distância.[1]

Mais recentemente, novas termelétricas a base de biomassa e sistemas de geração eólica começaram a ganhar presença significativa nesse papel de alternativa complementar do sistema hidrelétrico. Mas as perspectivas apontadas pelo Plano Decenal de Expansão de Energia 2008/2017 do Governo Federal deixam claro que a readequação da matriz elétrica brasileira contempla aumento significativo da participação de sistemas altamente poluentes, como as termelétricas baseadas em óleo combustível e carvão mineral.

 

No quesito transmissão, foi feito um extenso programa de licitação, construção e reforço das linhas elétricas e dos sistemas de transformação de corrente. Se nos oito anos do governo FHC haviam sido instalados no país 11 mil quilômetros de novas linhas de transmissão, no governo Lula foram implantados cerca de 30 mil quilômetros de linhas adicionais. E já estão licitados outros 11 mil quilômetros para implantação entre 2011 e 2013. Com isso, a capacidade de conexão entre as redes Sudeste e Nordeste do Sistema Interligado Nacional (SIN) passou de mil para 3,5 mil MW médios[2]. Ao lado da maior presença das térmicas, essa melhor interligação entre produção e consumo evitou um novo racionamento na temporada de seca de 2006-2007.

Por fim, houve a retomada da exploração da bacia amazônica, da qual falaremos a seguir. Mas cabe aqui uma interessante consideração: dentre as prioridades para o setor elétrico nesse período que sucedeu ao susto de 2001, praticamente desaparece a busca de maior eficiência e racionalidade no consumo de eletricidade. Inúmeras idéias que foram fartamente propagandeadas no período de contingenciamento do "apagão" encolheram de importância nos projetos e investimentos governamentais. Quem consulta o documento "Plano Decenal de Expansão de Energia 2019", descobre que apenas 12 das 330 páginas são dedicadas a discutir Eficiência Energética, e ainda assim limita-se a analisar alguns ganhos obtidos por cada setor econômico. De efetivo, encontramos apenas breve menção às projeções de um tal PNEf (Plano Nacional de Eficiência Energética), que – segundo o documento –  "está em fase final de elaboração pelo MME"[3]. Ou seja: ao contrário do que ocorre nas etapas de geração e transmissão, nas quais o poder público ganha crescente protagonismo, na ponta de consumo o governo por enquanto apenas vê a banda passar.

Não surpreende portanto que não haja nenhum grande programa governamental ligado a pesquisa e inovação voltadas para a obtenção de ganhos de eficiência energética junto aos consumidores. Os prometidos incentivos à popularização do uso doméstico dos sistemas de aquecimento solar de água, por exemplo, não saíram do papel. Sintomaticamente, ilustrando a página de abertura do site de um dos programas públicos de maior sucesso na área de eletrificação – o "Luz Para Todos" – encontramos uma boa, velha e ineficiente lâmpada incandescente. E o gigantesco programa governamental de construção de habitações  populares – que já entregou quase meio milhão de novas residências aos brasileiros de baixa renda – pode vir a ser conhecido como "Minha casa, minha vida e meu chuveiro elétrico de 5000 Watts", refletindo a crescente preferência popular pelos modelos mais potentes desse brasileiríssimo equipamento de banho.

 

Tem razão, portanto, os ecologistas que reclamam do descaso do atual governo com a redução do desperdício energético. E não deixa de ser verdade a alegação de que, com uma fração dos investimentos bilionários hoje direcionados a erguer novas unidades de geração, seria possível obter ganhos de eficiência e economia equivalentes a centenas de MW de energia nova, sem alagar um mísero centímetro de terra e sem lançar toneladas de poluentes na atmosfera. Mas, historicamente, os clientes do "lobby barrageiro" não se deixam seduzir por essas pequenas ações pulverizadas. Afinal, não é possível gerenciar as verbas e comissões de praxe em processos que envolvem milhares de pequenas empresas e milhões de consumidores.

 

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[1] FREITAS, Marcos (coord); MOREIRA, M. A.; PINAUD, R.; BARRETO, A.; Pequenas Centrais Hidrelétricas - Alguns Tipos de Instalações, Sistemas e Componentes http://portalpch.com.br/index.php?option=com_content&view=artic...

[2] FARIA, Glauco - Governo Lula e o Novo Papel do Estado Brasileiro. O Brasil em Debate - Vol. 03 - Fundação Perseu Abramo, 2010

[3] Plano Decenal de Expansão de Energia 2019 / Ministério de Minas e Energia. Empresa de Pesquisa Energética. Brasília: MME/EPE, 2010

Tags: Belo, Brasil, Monte, ambiente, energia, hidreletricas, termeletricas

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Respostas a este tópico

Caro André

Obrigado pelo texto elegante, informativo e circunstanciado. Parabéns!

Aguardo, ansioso, pela continuação prometida.

 

Caro Andre

Percebe-se por tudo que voce escreveu se tratar de uma pessoa que conhece o assunto, descrevendo os pros e contras do empreendimento.

Caso voce tenha lido algo que ja escrevi sobre o assunto, já percebeu que conforme voce classificou no primeiro topico, me considero "FLA", sou inteiramente a favor de hidroeletricas, incondicionalmente, por se tratar de energia das mais baratas e igualmente das mais limpas.

Tenho comigo que voce não considerou nas suas colocações  a relação energetica, ou seja quanto de energia se gasta para produzir aquela que iremos consumir, no caso da hidroeletrica, teremos basicamente a energia dispendida na sua obra propriamente dita, pois  a energia dispendida na manutenção de uma hidroeletrica chega a ser despresivel como voce bem sabe.

Um outro aspecto que gostaria de colocar como complemento em defesa das hidroeletrica, seria o beneficio que todo lago proporciona à região.

Em seu primeiro topico, voce mostra um mapa com as maiores barragens do Sudeste, atente bem a observação, em absolutamente todas as regiões onde foram construidas barragens, TODAS, as condições humanas de vida melhoram e muito, mais turismo, pesca, lazer, transporte, irrigação, saneamento, saude, e para completar ENERGIA.

Agua, sob todos os aspectos é vida, verifique pelo Google os entornos de todas as barragens, sem excessão, o indice de pobreza é visivelmente diminuido, voce poderia alegar, estarmos relacionando o Sudeste, pois então vá à Barragem de Sobradinho, Xingo, todos aqueles açudes do Nordeste, não tem como negar, maior abundancia de agua, maior condições de vida.

Creio que essa colocação seja suficiente para que os brasileiros abram os olhos e não altere muito sua matriz energetica, como seu quadro mesmo mostrou, que para 2017 teremos uma diminuição da participação das hidros, para aumento da participação dos fosseis, o que um torcedor do "FLA" só tem a lamentar.

Parabens pelos topicos, como voce mesmo disse, esclarecedores sem tomar partido.

 

 

 

abraços

 

Caro André

Estava desde o início esperando tuas conclusões dos bens estruturados Posts que colocastes no fórum. Como eles estão se alongando, antes das considerações finais farei poucas observações sobre o que levantastes até para auxiliar nestas.

Uma consideração geral, que talvez tenha deixado passar desapercebido é quando falas nos reservatórios de acumulação tanto no sistema Paraná como no sistema São Francisco. Fala-se muito das terras perdidas para a agricultura por estes reservatórios, porém se esquece que a maior parte dessas terras eram indevidamente utilizadas para a agricultura, e que possivelmente hoje em dia não seriam mais utilizadas. Explico melhor, por estas terras se situarem em vales elas tem uma declicividade excessiva inadequadas para uma agricultura sustentável. O uso para a agricultura nessas terras, na maior parte das bacias de acumulação (se vem corretamente isto na Bacia do Rios Pelotas-Uruguai - obras mais recentes com levantamentos mais precisos da bacia inundada) sobrecarregavam as calhas dos rios de sedimentos, a interrupção deste transporte tanto pela restrição ao uso como pela própria captação desses sedimentos modificou sobremaneira os sedimentogramas associados aos hidrogramas nessas bacias.

Há pouco, por motivos que não tem nada com o setor hidrelétrico, fizemos a análise histórica no Rio Parnaíba do Sul do transporte de sedimentos, e se vê claramente a redução do afluxo de sedimentos as partes baixas do rio, isto tem suas vantagens como suas desvantagens, porém o balanço em impacto ambiental é positivo.

Além do exposto, posso dizer que naturalmente estas terras nos vales encaixados seriam naturalmente abandonadas para a agricultura devido a dificuldade de mecanização e a restrições ambientais que se começa a cobrar hoje em dia.

Com o acima exposto, podemos facilmente concluir que a perda de área agriculturável não é linear com a ocupação dos vales por reservatórios de acumulação.

O segundo ponto, que tangencias, porém não vais a fundo é o uso múltiplo desses reservatórios. Chamo atenção que projetos de irrigação no Rio São Francisco como também a transposição de bacia seriam totalmente inviáveis se não houvesse os grandes reservatórios de acumulação. Não falo de outros itens como a navegação, o laser que são pouco desenvolvidos no nosso país (infelizmente), porém as poucas hidrovias existentes que economizam uma quantidade enorme de combustíveis fósseis são viáveis devido a regularização dessas barragens de acumulação.

O terceiro ponto, que passa desapercebido pela população e por grande número de profissionais da área, é a capacidade de laminação de cheias, esta laminação é um subproduto da operação correta desses reservatórios de acumulação. Vários sistemas de geração de energia hidrelétrica tem dado um verdadeiro alívio em bacias importantes para a população ribeirinha, se tivéssemos um sistema de zoneamento correto e alarme nas regiões alagáveis pouparíamos dezenas de vidas que são perdidas em eventos de cheias. Caso houvesse energia sobrando no país, poder-se-ia aumentar o volume de espera dos reservatórios de acumulação e aumentarmos, por consequência, a laminação das cheias, porém isto não é possível devido ao sufoco que estamos.

Quanto à observação "Minha casa, minha vida, meu chuveiro de 5000W", estás corretíssimo, venho me debatendo a tempos contra o uso desta "cadeira elétrica doméstica", contrapondo-me publicamente a "pesquisas" realizadas com dinheiro público que devido a sistemática totalmente erradas, provam que o uso de chuveiros elétricos é mais econômico do que aquecimento a gás. O governo poderia dentro do programa "Minha casa, minha vida" solicitar que as empresas fornecedoras de gás subsidiasse a implantação de aquecedores a gás de alta eficiência que evitariam o desperdício de energia e a eletrocussão de dezenas de brasileiros todos os anos. É um absurdo que o brasil seja um dos últimos países do mundo a permitir este tipo de equipamento na maioria dos lares brasileiros.

Por fim, aguardando as tuas conclusões, chamo a atenção do poder de melhoria de qualidade de vida que a implantação de barragens dão as regiões em que são implantadas, trazendo ao assunto o caso da Tennessee Valley Authority (TVA) caso bem documentado e bem estudado da implantação de barragens no vale do rio Tenessee feita por o presidente Franklin D. Roosevelt, sendo um dos exemplos mais vibrantes e inteligentes do uso de um propósito nobre para tirar toda uma região de um subdesenvolvimento no meio de uma depressão econômica.

 

Caso quiseres algumas informações mais técnicas, terei o máximo prazer de auxiliá-lo nesta tão bem montada série de publicações.

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