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Design, a ilusão estratégica

Albenísio Fonseca

Até o século 19, o derivado da filosofia era a revolução, agora é o estilo. Essa modalidade do fazer regida sob a aura do único, do exclusivo, é um atributo com características pré-industriais, mas foi resgatada para a modernidade com o advento do design. No princípio era o verbo. Hoje, tudo é design. Desenho industrial. Designo. Design. Embalagens de produtos, escolha e disposição de cores, formas, programação gráfico-visual de jornais, revistas, decoração, moda, arquitetura – o design está em toda a parte.

Verdadeiro processo industrial do estímulo, equacão funcional dos gostos, o design é uma ilusão estratégica, um invólucro articulado sobre o ideal do objeto, uma resolução estética regida sob o cálculo racional da funcionalidade. Já não se trata de valor de estilo ou conteúdo, mas do próprio processo da comunicação e da troca que a tudo designa.

“O belo é o útil e o útil é o significado”, já estipulava o poeta Décio Pignatari, um dos criadores da Poesia Concreta. O design tende sempre a ser um conjunto estético sem lapsos, sem falhas, sem comprometer a interconexão dos elementos e, inclusive, a transparência do processo, ideal sonhado pelos manipuladores de códigos, designers ou não.

Mas o fundamento da forma (mercadoria) e da economia política, nunca é dito. O design funda o sistema do valor de uso. Para que os produtos sejam trocáveis é preciso que sejam pensados em termos de utilidade. Do mesmo modo que no valor de troca o homem (produtor) não aparece como criador, mas como força de trabalho social abstrato – no sistema do valor de uso o homem (consumidor) numa aparece como desejo, mas como força de necessidade abstrata.

O que é consumido nunca é o próprio produto, mas sua utilidade. Se com a Revolução Industrial eventualizou-se a noção de produto, com a Bauhaus (mais importante escola de desenho e arquitetura em todo o mundo, fundada na Alemanha em 1919) tudo torna-se objeto, segundo uma lógica irreversível.

Simultâneo ao surgimento do objeto funcional, ocorre o do objeto surrealista: espécie de espelho mágico ridicularizador e transgressor do primeiro. O surrealismo ilustra e denuncia o esquartejamento do sujeito e do objeto. Ao libertar o objeto da sua função, revertendo-o em associações livres, a transgressão surrealista é, ainda, um jogo com objetos formais, figurativos.

Hoje, a funcionalidade quase artesanal da Bauhaus foi ultrapassada pelo design matemático e pela cibernética do ambiente. Vide as estruturas vivas, os prédios inteligentes. O que o design nos faz ver é que nosso ambiente é um universo de comunicação. Se começou por aplicar-se apenas aos produtos industriais – antes nada era objeto, nem mesmo o utensílio cotidiano – depois tudo é, tanto o prédio, como o talher, como a cidade inteira.

Tudo hoje é circunscrito pelo design. Tudo é designado: o corpo, a sexualidade, as relações humanas, sociais, políticas. Do mesmo modo, as necessidades e aspirações. Esse universo designado, ou em outra palavra, fetichizado, é que constitui, propriamente, o ambiente. Em suma, no processo econômico de troca, hoje, já não são as pessoas que efetuam trocas, mas o próprio sistema de troca, que se reproduz através delas.

Tags: 19, funcional, gráfico-visual, mercadoria, moda, música, objeto, produção, programação, revolução, Mais...século

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Respostas a este tópico

Albenisio
Muito estimulante o tema, parabéns pela abordagem sistematicamente articulada na propensão do objeto.


Não vou sair ressaltando partes do texto porque todo conteúdo e de grande relevância.
Pegando só um trechinho ... você disse; “tudo é designado”.

O que vivemos hoje é fruto resoluto da indústria, do poder produtivo da modernidade incorporando ao desejo ou necessidade surreal do ser humano.

Eu habituei muito do meu tempo na observação do objeto e do espaço, propriamente pela necessidade de informação profissional e muito pela empolgação do envolvimento com o belo e a com a forma.

Passei muito tempo trabalhando envolvida pelo poder de produção industrial e artística,
até liberar para o poder cultural e rever que para a instante e o bem necessário
poucos elementos são indispensáveis.
É difícil viver num tempo de muita oferta e muita informação.

Abraço /Lena

só para complementar;

eu quis dizer informação visual.

Em toda a forma extrema de cultura visual, com que é demarcada a cultura contemporânea, muito bem ilustrada, aliás, pela expressão de James Joyce (uma paródia à estipulação cristã) “ama teu rótulo como a ti mesmo” – na gramaticalidade da paixão (um puro afã?) e do olhar, há mil interpretações disponíveis e acessíveis até para desvendar esse real mascarado pela construção das aparências enganosas.

Há uma “ação visual” determinando, hoje, o isolamento e o controle da sociedade. Há também um “sentido visual” estabelecendo um tipo de crise na identidade humana consolidada sob a fragmentação. Há, ainda, uma capacidade “táctil” no olhar, cuja façanha é impossível de ser repetida pelos demais sentidos.

Em todo esse universo óptico, ou na óptica reinante, o olhar nos remete a duas instâncias: a interior (o imaginário) e a exterior (a realidade), cuja matriz comum é a vivência do espaço, como ocorre na linguagem visual das artes plásticas. 

Albenísio,

Estamos no paredão do livre arbítrio, mas como optar com liberdade e consciência    se vivemos a influência do meio. E tudo acontece de forma tão rápida que não temos nem tempo de associar a lógica à necessidade. Talvez porque não exista nenhuma lógica no ser humano e exista  simplesmente a lógica do design do pressuposto “design”.

Outro dia numa palestra que assisti da minha associação, o assunto tratado era o comportamento do cérebro x criatividade,  então o palestrante  expôs um gráfico com uma pergunta.  Ele em seguida expôs  um quadro simulando  respostas de algumas pessoas . A primeira pessoa deu a resposta que achou coerente, a segunda também deu a sua resposta, a terceira começou a ter influências das demais e as outras pelo mesmo caminho ainda que a respostas estivessem erradas.  Moral da história  ninguém deseja  contestar o grupo.

 

Voltando ao objeto;

O homem é atraído pela forma, pela estética e pelos intresses do grupo. Ele futilmente se materializa , tornando ele próprio mercador de suas potencialidades e individualidades.  

O  universo do design apenas configura o que ele "o homem" pensa ser e  pensa poder.

 

como você disse muito bem:

"há mil interpretações disponíveis e acessíveis até para desvendar esse real mascarado pela construção das aparências enganosas."

albenísio,

ontem conversava com a cláudia sobre quão interessante é este teu tópico ao focalizar o tema do design sob a ótica da mercadoria, esta ilusão onde todos, de um modo ou de outro, uns mais, outros menos, acabam caindo.

lembro que, há muito tempo, lia alguns estudos de roland barthes sobre semiótica e ele recorria à separação entre língua/fala usando como referência a indumentária, no caso a língua, e o traje, no caso a fala. o que nele me fascinava era a abordagem sobre o caráter inconsciente da língua, não relativamente ao seu conteúdo, mas sobretudo a forma, ou seja, a sua função simbólica. e o design é isto, né? uma expressão linguística que diz muito do homem, de um homem que vive num mundo onde, como vc acentuou, tudo se tornou, se torna objeto.

 

o fetiche da mercadoria elevado a sua mais alta potência e a gente mera marionete de desejos que pensamos serem nossos. qual o quê!

 

Luzete (e Cláudia),

Grato pela leitura e reflexão. Como estipulara Dante, em A Divina Comédia, “ser percebido é mais humano que perceber”. No iluminismo – corrente filosófica do século XVIII que se caracterizava pela confiança no progresso e na razão, pelo desafio à tradição e à autoridade e pelo incentivo à liberdade de pensamento - o olhar tendia à visibilidade plena.
Já o olhar moderno configurou-se pela capacidade plena da vigilância, sob a estrutura meticulosa do “panopticon”, ultrapassado, na contemporaneidade, pelas câmeras instaladas em todos os percursos, sob a mesma égide da vigilância total. E supomos escapar ilesos, na era da telemática, dialogando, contemplativos, em touch screens ou via web cam. 

A consciência do “tudo ver” dos iluministas é tornada, então, na consciência do “ser visto”, ou, o que vale dizer, passamos da clarividência à paranóia institucionalizada. 

A semiologia "de Barthes", ou a parte dela que melhor se desenvolveu - a da análise das narrativas - permanece prestando serviços à história, à etnologia, à crítica dos textos, à iconologia (toda imagem é uma narrativa), à moda e sua sintaxe (formas de combinar, ordenar, por em relação). O par língua/fala é de origem saussereana (de Ferdinand Saussure), está nos primórdios da Semiologia. Com o Maio de 68, tudo mudou. E essa ciência dos signos (ou sua contraface, a semiótica) converteu-se (como diríamos de um herege) em coringa, válido para todos os saberes.

nossa, albenísio, quando leio esta sua reflexão, fico encasquitada demais, ainda que seja observadora atenta deste movimento. o que quero destacar é esta passagem aqui:

"A consciência do “tudo ver” dos iluministas é tornada, então, na consciência do “ser visto”, ou, o que vale dizer, passamos da clarividência à paranóia institucionalizada."

é mesmo preocupante esta mudança do foco do olhar, não?

mas, me diga, é mesmo tão assustador? prá qual mundo novo estamos nos dirigindo e para além das profecias de huxley?

pelamordedeus, dá uma esperança prá nós, vai!

Nesse caso, Luzete, estamos mais para George Orwell e seu Big Brother (1984) que para Huxley, embora sejam, ambos, os nossos mais admiráveis paradigmas de futuro. No que tange ao apelo de esperança, ressaltaria apenas que Deus é uma invenção humana. Também está dividido. Portanto, devemos nos manter na luta por tudo que acreditamos representar.   

 

Albenísio

Eu voltei para  falar um pouco em defesa do design lembrando que o diabo não é tão feio quanto pintam.  Do estímulo que move quem cria o objeto de desejo.

Vale ressaltar que quem projeta, lança, estabelece  a essência estética do design, ele  o criador seja em qualquer segmento, não foge aos seus  compromissos sociais. Ele sabe da relevância da ética para vencer a forma  e atingir ao desejado aspecto do belo. Ele segue parâmetros  para  chegar a plenitude da sua  invenção/criação, a coisa extrapola e quando o produto sai das mãos de quem executa.

Frank Lloyd Wright , que defendia a arquitetura orgânica  “acreditava que uma casa deve nascer para atender às necessidades das pessoas e do caráter do país como um organismo vivo.”  Concebeu esta idéia em função  de  Sua convicção sobre as novas edificações “edifícios”  e sobre o processo industrial em contrapartida às construções racionalistas .   Ele tinha a idéia que o arquiteto era um “ modelador “ dos homens.

Eu creio que hoje a ação midiática modela os homens muito mais que do que os criadores e precursores da forma.

 

 "Só podemos alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos."
Friedrich Nietzsche 

 

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