As vagas dançam no vai-e-vem do porvir,
Na argamassa e no ar entorpecido,
Onde pássaros da mente brincam no corpo,
Aonde os gatos gordos vão aconchegando.
As águas lamacentas no fluir do esgoto,
Trazem reluzentes peixes e despojos,
Na correnteza dilacerada em seu pulso,
Onde luzes são acesas na sombra da coragem.
A procissão de corpus Christi traz o estandarte,
E os olhos do fogo que ri nas profundezas,
Do ar irrespirável do ódio e do mal espargido,
Em luz sobre luz ofuscando as estrelas.
Que nenhum sangue macule esse altar,
Vocifero aos quatro cantos, desnorteado,
E celebro na minha esfera de cristal,
As minhas frágeis asas de chuva e de prata.
Agora, uma impressão, um senso comum,
Escapa à minha conversa tola e abstrata,
A confundir o olho da serpente que espreita,
E lança sementes de tempestade, fogo e ar.
Delibero sentimentos da cor da natureza,
Minha raiz esconde o interior da primavera,
Onde o equilíbrio volteia no vento do vale,
Escondendo letras traçadas em dicionário.
Dr. Fernando Enéas de Souza
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