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Por Noam Chomsky

1- A estratégia da diversão

Elemento primordial do controle social, a estratégia da diversão consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, graças a um dilúvio contínuo de distrações e informações insignificantes. A estratégia da diversão é igualmente indispensável para impedir o público de se interessar pelos conhecimentos essenciais nos domínios da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por assuntos sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar, voltado para a manjedoura com os outros animais" (extraído de "Armas silenciosas para guerras tranquilas").

2- Criar problemas, depois oferecer soluções

Este método também é denominado "problema-reação-solução". Primeiro cria-se um problema, uma "situação" destinada a suscitar uma certa reação do público, a fim de que seja ele próprio a exigir as medidas que se deseja fazê-lo aceitar. Exemplo: deixar desenvolver-se a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público passe a reivindicar leis de segurança em detrimento da liberdade. Ou ainda: criar uma crise econômica para fazer como um mal necessário o recuo dos direitos sociais e desmantelamento dos serviços públicos.

3- A estratégia do alongamento

Para fazer aceitar uma medida inaceitável, basta aplicá-la progressivamente, de forma gradual, ao longo de 10 anos. Foi deste modo que condições sócio-econômicas radicalmente novas foram impostas durante os anos 1980 e 1990. Desemprego maciço, precariedade, flexibilidade, deslocalizações, salários que já não asseguram um rendimento decente, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se houvessem sido aplicadas brutalmente.

4- A estratégia do diferimento

Outro modo de fazer aceitar uma decisão impopular é apresentá-la como "dolorosa, mas necessária", obtendo o acordo do público no presente para uma aplicação no futuro. O público tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhor amanhã".

5- Dirigir-se ao público como se fossem crianças pequenas

A maior parte da publicidade destinada ao grande público utiliza um discurso, argumentos, personagens e um tom particularmente infantilizadores, como se o espectador fosse uma criança pequena ou um débil mental. "Se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos de idade, então, devido à sugestibilidade, ela terá, com uma certa probabilidade, uma resposta ou uma reação tão destituída de sentido crítico como aquela de uma pessoa de 12 anos". (cf. "Armas silenciosas para guerra tranquilas" )

6- Apelar antes ao emocional do que à reflexão

Apelar ao emocional é uma técnica clássica para “curtocircuitar” a análise racional e, portanto, o sentido crítico dos indivíduos. Além disso, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para ali implantar ideias, desejos, medos, impulsos ou comportamentos...

7- Manter o público na ignorância e no disparate Atuar de modo a que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para o seu controle e a sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser de baixa qualidade, de tal modo que o fosso da ignorância que isola as classes inferiores das classes superiores permaneça incompreensível pelas classes inferiores". (cf. "Armas silenciosas para guerra tranquilas" )

8- Encorajar o público a comprazer-se na mediocridade

Encorajar o público a considerar "natural" o fato de ser idiota vulgar e inculto...

9- Substituir a revolta pela culpabilidade

Fazer crer ao indivíduo que ele é o único responsável pela sua infelicidade, devido à insuficiência da sua inteligência, das suas capacidades ou dos seus esforços. Assim, ao invés de se revoltar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto-desvaloriza e se culpabiliza, o que engendra um estado depressivo que tem como um dos efeitos a inibição da ação. E sem ação, não há alteração!... Exemplo: a sociedade da eficiência (ninguém pode errar).

10- Conhecer os indivíduos melhor do que eles se conhecem a si próprios

No decurso dos últimos 50 anos, os progressos fulgurantes da ciência cavaram um fosso crescente entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dirigentes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" chegou a um conhecimento avançado do ser humano, tanto física como psicologicamente. O sistema chegou a conhecer melhor o indivíduo médio do que este se conhece a si próprio. Isto significa que na maioria dos casos o sistema detém um maior controle e um maior poder sobre os indivíduos do que os próprios indivíduos.

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Respostas a este tópico

Chomsky, sempre lúcido. Mas dá um desânimo na gente ver que esses métodos funcionam. E que o grau de letramento e reflexao está cada vez menor. O item 10 acima é particularmente assustador. 

Triste constatação Analú. O que mais me preocupa é o desinteresse dos jovens pela leitura e o conhecimento, como você bem afirma acima referindo-se ao ítem 10 e acrescentaria ainda  o ítem 9 "substituir a revolta pela culpabilidade" que inibe a ação e sem ação, não há alteração.

Entretanto, enxergo que esse sistema começa a dá sinais de exaustão, como exemplo os acontecimentos na Europa e ainda taxas elevadas de desemprego nos EUA.    

Nao se esqueça dos "esculachos" feitos aqui, e da açao dos jovens no Rio contra os milicos do Clube Militar. Ainda há um pouco de esperança... 

Bem lembrado!

 

Então Webster, o texto resume bem estratégias usadas para manipular mentes, mas a manipulação, digo, a causa primeira da possibilidade de se manipular alguém é este alguém não ter sido formado para pensar, para questionar, para duvidar, para não substituir o esforço de pensar pelo  pensamento pronto, entregue pasteurizado. E, neste sentido, o grande papel da família primeiro e do professor em complemento, é prá mim, mais do que oferecer os conteúdos curriculares,  exercitar com as crianças e os jovens o aprendizado do livre pensamento. E este trabalho é silencioso, é demorado, é anônimo, é insidioso, no sentido de mostrar resultados muito a longo prazo e não ser espetacularizado. Também não comungo de entusiasmo no que diz respeito à forma de manifestar dos jovens do Rio no episódio do Clube Militar. A princípio não me agrada uma forma que copia aquilo que criticamos em nossos opositores. A impressão que me fica, posso estar enganada, é que são os mesmos jovens que amanhã estão engrossando o movimento do "cansei" contra a corrupção, ou indo votar de verdinho em Marina porque ela é "ecologicamente correta", ou anulando voto indiscriminadamente porque todo político é corrupto, etc. Tudo no efeito manada, sem pensar, sem maior significação ao gesto. Eu convivo com centenas deles e sei bem como é. Mas há sim, muitas esperanças. Quando por exemplo vejo um vídeo como este e a abordagem que um Pablo Villaça p ex faz de temas tão relevantes para esta juventude que já se distanciou tanto de um Brasil cuja história não pode ser reinventada. Amanhã volto, hoje chegando de viagem e morta de cansaço. 

Emília,

Também posso está enganado, mas desconfio que o grande papel da família não vem sendo exercitado com os jovens no aprendizado do livre pensamento. Por diversas razões os pais estão mais ausentes na educação dos filhos, até porque, geralmente os dois trabalham para sustento de suas famílias e sobram para os professores estabelecerem essa formação, quando podem.

Quanto a manifestação dos jovens no Rio foi louvável, diante de tanta passividade e impunidade, com que é tratado a questão dos direitos humanos no Brasil e ainda as manifestações de alguns militares contárias à comissão da verdade. Não vejo analogia com o movimento cansei.

Esse artigo do Eric Nepomuceno retrata bem essa questão.

  

Meu amigo, o guardião da memória, o tecelão da justiça

Quando alguém dizia a Eduardo Luís Duhalde que era preciso virar a página do passado e olhar para o futuro num clima de conciliação, ele respondia que estava de acordo – desde que antes fosse lido e revelado o que aquela página continha. Não pode haver conciliação enquanto houver injustiça e impunidade, dizia. Sem memória não há verdade, dizia, e sem verdade não há justiça, e sem justiça não há nem dignidade, nem democracia, e muito menos futuro. O artigo é de Eric Nepomuceno.

Eu estava em Cuba, numa Havana ensolarada e de ventania, quando chegou a notícia da morte, lá em Buenos Aires, de meu amigo Eduardo Luís Duhalde. Ele era advogado. Mas muito mais que isso, foi um eterno militante em defesa dos direitos humanos, da esperança e do futuro. Tinha 72 anos. Às vezes eu achava que tinha muito mais, pela vida vivida, pela experiência acumulada. Às vezes eu achava que tinha muito menos, pela fé no futuro, por uma espécie de esperança que se renovava, por uma espécie de ousadia quase ingênua – e que dava certo, dava resultados.
Nós nos conhecemos no velho café Ramos da avenida Corrientes, naquela sinistra Buenos Aires de maio ou junho de 1976. Ele havia acabado de cair de vez na clandestinidade. Havia contra ele uma ordem de prisão, que naquela ditadura argentina recém-inaugurada (o golpe havia ocorrido em março) significava morte certa: ninguém era formalmente preso, todos eram informalmente mortos. Havia contra ele um decreto desapropriando todos os seus bens, acumulados durante anos de uma vida de advogado de presos políticos, de perseguidos pela miséria humana, de militância sem fim: uma casa perto de onde eu morava, um par de contas bancárias mais magras que aquela gente que ele defendia.
Naqueles dias de turbilhão nos reuníamos numa Buenos Aires clandestina, eu sempre debaixo de uma nuvem de medo, ele sempre debaixo de um céu de confiança. Juntos escapamos de lá, juntos fomos para uma Madri tão idílica quanto traiçoeira – para a Espanha de agosto de 1976, menos de um ano depois da morte de Francisco Franco, generalíssimo, caudilho da Espanha pela graça de Deus. Madri continuava sendo uma cidade franquista, avara, embolorada.
Foi naquela Madri sombria, que nada ou quase nada tem a ver com a de hoje, que ele, em companhia de outros advogados militantes, criou a Comissão Argentina de Direitos Humanos – a CADHU que tanto fustigou a ditadura de seu país, divulgando suas atrocidades em todos os foros e espaços possíveis mundo afora. Foi a pertinácia de Eduardo Luís Duhalde, cruzando a Europa primeiro num Citroën mal ajambrado, depois num velho Volvo vermelho que vendi a ele por 400 dólares, que reuniu na CADHU gente como os escritores Julio Cortázar e David Viñas. Onde quer que houvesse alguém disposto a ouvir o assombroso relato de sequestros, torturas, desaparecimentos e assassinatos cometidos pela ditadura argentina, lá estava ele. E quando não aparecia ninguém disposto, ele corria até achar alguém, um só que fosse. De um desses encontros surgiu um filme de Carlos Saura – ‘De olhos vendados’ – que marcou época. Qualquer expressão podia ser uma arma de denúncia.
Seu apartamento madrilenho era porto seguro para argentinos de todas as tendências e trajetórias. Nunca, em momento algum, mesmo nas noites mais sombrias daqueles tempo de breu, vi Eduardo Luis Duhalde perder o humor ágil e afiado, deixar-se sucumbir, perder um milímetro que fosse daquela sua fé infinita no dia em que se faria Justiça. E ele foi ferramenta essencial para que esse dia chegasse. Tudo que a Argentina vive hoje – a vanguarda de um processo de busca da verdade, de resgate da memória e da realização da justiça – se deve à determinação do ex presidente Nestor Kirchner e de sua viúva e sucessora, Cristina Fernandez de Kirchner, é verdade. Mas de pouco teria valido essa determinação se não fosse a obstinada labor de Eduardo Luis Duhalde. Com seu trabalho levou a cabo a difícil tarefa de demonstrar que as leis de anistia eram inconstitucionais, que a impunidade contra crimes de lesa-humanidade ia contra acordos assinados pela Argentina, que as cortes e os tribunais internacionais exigiam o acionar da Justiça contra agentes públicos que implantaram o terrorismo de Estado. Antes, muito antes, lembro de quando começaram a chegar, na Europa, os primeiros relatos de roubo de bebês.
Muita gente boa duvidava que a cruel covardia da ditadura chegasse a esse extremo. Eduardo Luís Duhalde soube desde a primeira hora que aquilo podia muito bem ser verdade – como depois de confirmou.
Foi toda uma vida dedicada à defesa dos perseguidos. Defendeu, durante a ditadura que entre 1966 e 1973 antecedeu a volta da democracia e de Perón à Argentina, militantes dos grupos armados, tanto peronistas quanto marxistas. Teve um sócio que era ao mesmo tempo seu melhor amigo, Rodolfo Ortega Peña, a primeira vítima da Aliança Anticomunista Argentina, a tenebrosa ‘AAA’. Eram dos poucos, pouquíssimos, que se animavam a defender os militantes perseguidos. Ortega Peña pagou essa audácia com a própria vida. Duhalde, com o exílio.
Em 1983, quando a democracia voltou à Argentina, ele voltou junto. Escreveu um livro, ‘O Estado terrorista’, que é hoje um clássico soberano sobre as entranhas das ditaduras em nossos países, abordando um aspecto nem sempre lembrado: a confluência entre a defesa de interesses do grande capital e os horrores dos porões.
Passado o tempo, sua contribuição foi essencial para que os genocidas fossem levados aos tribunais e tantos deles tenham sido julgados e condenados. Como secretário de Direitos Humanos, atuou muitas vezes como advogado do Estado, abrindo processos e levando diante de juízes os que haviam sequestrado, massacrado e assassinato militantes da resistência à ditadura que imperou entre 1976 e 1983. Deu, a todos e a cada um, o que eles haviam negado às suas vítimas: o direito de defesa, de justiça.
Quando alguém dizia a ele que era preciso virar a página do passado e olhar para o futuro num clima de conciliação, ele respondia que estava de acordo – desde que antes fosse lido e revelado o que aquela página continha. Não pode haver conciliação enquanto houver injustiça e impunidade, dizia. Sem memória não há verdade, dizia, e sem verdade não há justiça, e sem justiça não há nem dignidade, nem democracia, e muito menos futuro.
Soube deixar sua marca entre adversários que divergiam de sua ideologia mas prestavam reconhecimento e respeito à sua luta permanente.
Fomos amigos durante 36 anos – a idade de meu filho. Em minha memória estará para sempre, para sempre, sua lembrança. Em meu baú de afetos haverá espaço permanente para a sua figura. Eduardo Luis Duhalde, guardião da memória, tecelão da justiça.

  

 

Muito bom texto. É triste ver que só nós ainda nao punimos os torturadores, e que há um risco do STF fechar definitivamente qualquer chance deles serem punidos juridicamente. Em circunstâncias como essa, como ser contra o esculhacho por parte da populaçao? É a única puniçao que resta possível para esses canalhas. 

Analú,

Veja essa manifestação.

 

Da Rede Brasil Atual

Escracho, uma maneira de mostrar que a ditadura tem rosto – e vida

Atos organizados nos moldes da Argentina ganham força na tentativa de expor uma verdade que custa a vir à tona por iniciativa do próprio Estado

Por: João Peres, Rede Brasil Atual

Publicado em 08/04/2012, 08:40

Última atualização às 09:01

  Escracho, uma maneira de mostrar que a ditadura tem rosto – e vida

Os atos de escracho podem ajudar a romper o desconhecimento dos jovens sobre os fatos da ditadura (Foto: Marlene Bergamo. Folhapress)

São Paulo – Tornados famosos na Argentina, os escrachos contra colaboradores da ditadura vão ganhando força no Brasil. O segundo em quinze dias, realizado ontem (7) em São Paulo,denunciou Harry Shibata, médico legista que falsificava a causa da morte em laudos de pessoas assassinadas pela repressão, como o do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, morto em 1975.

Cá, como lá, este tipo de ato serve não apenas para mexer com os humores do passado, mas para mostrar que algumas páginas não foram viradas. “As atrocidades que foram cometidas no passado continuam sendo cometidas no presente”, lembra Fábio Pimentel, do Coletivo Quem, um dos organizadores de uma manifestação recente que mostrou as conexões de empresários com a ditadura. “Principalmente contra a população pobre, contra a população negra. Identificar os criminosos do passado e puni-los é o primeiro passo para punir os torturadores do presente.”

Ouça a reportagem da Rádio Brasil Atual sobre o ato de escracho a Harry Shibata

O escracho também vai aproximando do tema a população jovem, que poderia levantar a tradicional pergunta: “O que eu tenho a ver com isso?”. Na Argentina, as manifestações eram conduzidas por moças e rapazes que haviam perdido pais e tios para os centros de tortura e desaparecimento. Eram milhares as meninas e os meninos nesta condição, já que o regime levou a vida de 30 mil pessoas. Por aqui, com um número menor de vítimas (424, oficialmente), o escracho se transforma na possibilidade de mostrar que os assuntos do passado estão relacionados com o presente, ou seja, todos têm tudo a ver com aquilo. Inclusive os vizinhos, que no mais das vezes ignoram quem mora na porta ao lado, já que a maioria das identidades dos colaboradores do regime segue desconhecida.

Givanildo Manuel, do Tribunal Popular, compara as violações promovidas por Shibata, atualmente alvo de processo movido pelo Ministério Público Federal, aos crimes cometidos em maio de 2006 pela Polícia Militar de São Paulo como reação aos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC). “Muitos legistas ainda têm esse mesmo padrão do Harry Shibata, como aconteceu com os Crimes de Maio, como têm acontecido contra vários jovens da periferia.”

Não por acaso, o ato anterior na capital paulista, realizado no último dia 26, teve como foco o delegado aposentado do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), David dos Santos Araujo. Hoje, dono de uma empresa de segurança privada, ou seja, utiliza o know how adquirido nos porões para lucrar. No Rio de Janeiro, jovens que decidiram protestar contra um ato organizado no Clube Militar para celebrar o aniversário da "revolução", maneira como chamam o golpe de 1º de abril de 1964, acabaram virando alvos de ameaças de morte difundidas pela internet. Como no passado, sem rosto e sem assinatura. “Se há impunidade, se não há memória, os crimes continuam”, resume a estudante de artes plásticas Cândida Guariba, neta de Heleny Guariba, ainda desaparecida.

Na Argentina, os escrachos cumpriram seu papel, e esgotaram-se após alguns anos. Porque deixavam de surpreender, porque a luta já ingressava em outro momento. Após fluxos e refluxos, em 2003 a possibilidade de punição penal dos agentes do Estado a serviço do regime autoritário ganhou fôlego com a revogação dos dispositivos de anistia. Hoje, o país vizinho tem 237 condenados e 778 processados, a ponto de já vislumbrar o esgotamento de mais uma etapa da transição. As vítimas estão cansadas de tantos testemunhos e a história, investigada a fundo, já revelou centenas de episódios, a ponto de se imaginar que o surgimento de novos casos seja menos frequente nos próximos anos. Além disso, a Justiça de transição argentina não atingiu apenas os níveis mais baixos: todos os ex-presidentes da Junta Militar foram sentenciados.

O Brasil, mais uma vez, mostra seu atraso em relação ao vizinho. O escracho, no momento em que vem, ajuda a levantar a crescente discussão sobre a necessidade de, ao menos, conhecer-se o passado antes de virar a página. “Essa impunidade é de um nível assustador”, lamenta a médica Elzira Vilela, presa política. “Nós, que sobrevivemos, é uma obrigação lutarmos pela Justiça. É um compromisso que temos com os companheiros assassinados.”

A punição penal segue caminho difícil no caso brasileiro. À diferença da Argentina, em que qualquer cidadão pode pedir a abertura de investigação criminal, aqui se trata de atribuição exclusiva do Ministério Público Federal, que apenas agora deixa de tratar o caso como exceção – ainda assim, em torno do trabalho de uns poucos procuradores, como no Pará, no Rio Grande do Sul e em São Paulo.

Do lado do Judiciário, a possibilidade de sentença contra torturadores também parece complicada. Recentemente, a Justiça de primeira instância do Pará tardou apenas dois dias para rejeitar ação contra Sebastião Curió Rodrigues de Moura, coronel da reserva do Exército, ou simplesmente major Curió. A argumentação do juiz João César Otoni de Matos levou em conta decisão de 2010 do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou que a Lei de Anistia, aprovada por um Congresso sob intervenção, foi fruto de amplo acordo da sociedade. O magistrado desconheceu, para isso, o entendimento da Corte Interamericana de Direitos Humano, de competência que o Brasil reconhece espontaneamente, de que o desaparecimento forçado é um crime continuado e, portanto, ainda passível de punição.

A se esperar, agora, a nomeação dos integrantes da Comissão Nacional da Verdade. Sancionada em 18 de novembro, a lei que cria o colegiado para apurar violações de direitos humanos cometidos pelo Estado segue ritmo lento de execução. Depende de Dilma Rousseff a designação dos sete membros. “Temos de deixar claro à presidenta Dilma Rousseff que queremos esta comissão o mais rápido possível”, cobra o historiador José Luiz del Roio, exilado durante o regime. Enquanto a verdade não é revelada pelo Estado, o escracho é um dos instrumentos da sociedade.

 

 

A primeira matéria eu tinha visto, no blog-mae, a segunda nao. Foi ótimo o Nassif ter divulgado, porque é um blog maior, nao estritamente de esquerda, dá mais visibilidade. Eu sou francamente a favor desse movimento, desde que os alvos sejam pessoas sobre cuja participaçao nao haja dúvidas, como é o caso do Shibata. É uma forma de pressao da sociedade, exigindo a formaçao da Comissao da Verdade e o cumprimento dos acordos internacionais que o Brasil assinou. 

Webster, acabei de ler esse texto que vou postar, e ainda nao sei muito o que pensar sobre algumas coisas dele, teria que ter mais tempo. Mas acho que ele merece discussao: 

“Mon Père, quel âge avez vous?” : Sobre a Memória histórica da ditadura militar, por Carlos Eduardo Rebello de Mendonça

Carlos Eduardo Rebello de Mendonça é o autor de Trotski: Diante do Socialismo Real

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No clássico de Erich Auerbach sobre a evolução da representação da realidade na tradição literária ocidental, Mimesis, é citado um trecho das Memórias do Duque de S. Simon em que este conta o encontro reservado que teve em Versalhes com o confessor de Luis XIV, o jesuíta Tellier, que lhe pedia apoio político a uma perseguição religiosa, episódio este que o Duque descreveu , muitos anos mais tarde, horrorizado diante da sua recordação de um jesuíta que, “nada podendo esperar para sua família, nem, pelo seu estado e votos, para si mesmo, nem uma maçã ou um copo de vinho a mais que outros; que, pela sua idade mesma, estava a ponto de prestar contas a Deus, mas que, deliberadamente e através de grandes artifícios, lançaria o Estado e a religião na mais terrível combustão, e começaria uma perseguição terrível por questões que não lhe diziam respeito [...] Tudo isto me lançou num tal êxtase, que, subitamente percebi-me perguntar enquanto o interrompia: ‘Meu padre, que idade tendes?’ [Mon Père, quel âge avez vous?]”. O Duque descobre, então, que o jesuíta tinha então 73 anos – o que, no século XVIII, era obviamente uma idade mais do que provecta. E Auerbach comenta: quando S. Simon olha Tellier de tous ses yeux, ele percebe , para além do indivíduo, “a essência de qualquer comunidade solidária rigidamente organizada” – a noção daideologia como algo que “torna-se uma força material ao tomar a mente das massas”.

Quando, no Rio de Janeiro, três séculos após o encontro de S.Simon, vê-se uma comunidade de velhos torcionários, dos quais, pela idade igualmente provecta, poder-se-ia esperar que estivessem concentrados no seu memento mori , e ainda mais necessitados que o bom Padre Tellier em compenetrarem-se do julgamento divino (ou da posteridade, c’est égal) ; um bando de octogenários , muitos com dificuldades de locomoção, dirigirem-se , mesmo trôpegos, a um lugar público para aí darem vivas, da maneira mais acintosa, numa provocação meticulosamente preparada, a um atentado contra a mera legalidade burguesa, à tortura e ao homicídio, e encontrarem apoio na repressão policial para provocarem , num breve espaço de tempo, uma combustão que pouco faltou para concluir-se com uma morte entre seus opositores – diante de tal espetáculo, cabe novamente a pergunta do Duque: qual, afinal, a idade dessa gente? Pois tanto endurecimento no prazer perverso na extrema velhice não pode ser considerado como justificativa, e sim como agravante…

Seja como for, em si mesma, tal comemoração deveria suscitar mais a repugnância do que a cólera, e o maior paradoxo da manifestação de 29 de março de 2012 estava em que os mais encarniçados na denúncia aos golpistas eram, na maioria, pessoas que, pela idade, não eram nem nascidas quando terminou a ditadura. Só que, em política, nenhuma evocação do passado existe “em si mesma”; quando o morto “ressurge”, é porque ele não estava , de fato, morto… ou porque se trata de outra coisa.

De certo modo, o Golpe de 1964 e os vinte e um anos de ditadura que a ele se seguiram representaram a conclusão da nossa Revolução Burguesa, a “Revolução Brasileira” dos isebianos – apenas (três)lida pela ótica do interesse mais reacionário. Neste processo, tudo que havia sobrevivido de pré-capitalista na nossa cultura e política – as tradições paternalistas, a “cordialidade” privada temperando a brutalidade das relações econômicas, a democracia informal dos botequins cariocas , etc.etc. – tudo isto, entre 1964 e 1985, foi extirpado, eliminado , aniquilado – em função do simples interesse econômico mais grosseiro, o pagamento a vista do Manifesto Comunista. De lá para cá, chegamos finalmente à modernidade – mas uma modernidade inteiramente reacionária, e daí o nosso sentimento difuso de habitarmos uma sociedade profundamente embrutecida.

Já que estamos falando de política por meio da literatura, vem a propósito lembrar a sátira do falecido Millôr Fernandes, que, diante do deserto do pós-ditadura e do governo Sarney, fazia um pasticho de Manuel Bandeira para falar do Brasil como país da falsa modernidade , onde “Telefone não telefona/A droga é falsificada/E prostitutas aidéticas/ Se fingem de namoradas”. Estava, lamentavelmente, errado: trinta anos depois, ainda que os telefones (privatizados) telefonem (a preços extorsivos) e as drogas talvez possam ser mais confiáveis, o grande problema da modernidade brasileira presente é que ela nada tem de “ideológico” no seu sentido de senso comum, de mistificação; as prostitutas não “se fingem” mais de namoradas – ou de qualquer outra coisa; o interesse capitalista nu e cru mostra em toda parte a sua cara. Os tempos não se prestam mais à sátira – e é precisamente por isso que enquanto os octogenários da repressão fanfarroneiam na rua, dos octogenários da Turma de Ipanema, “os que teimam em viver, estão entrevados” (ou aderiram…). No Brejal dos Guajajaras high-tech , o “latifúndio feudal” virou agribusiness e imperialismo “globalização”.

A Direita neoliberal, quando quer se dessolidarizar da ditadura, adora dizer que esta foi “de Esquerda” (i.e., nacionalista e estatista). O que há de falso neste sofisma é considerar que o nacionalismo e a intervenção estatal, possam, em si mesmos, serem de “Esquerda”. Mas uma coisa é certa: a ditadura foi desenvolvimentista; de certa forma, ela confirmou Álvaro Vieira Pinto e Guerreiro Ramos quando estes, no ISEB, escreviam que a consciência da necessidade do desenvolvimento econômico era algo que penetrava todas as classes da sociedade brasileira. Estavam completamente corretos: no meio século seguinte, o que caracterizou todos os atores políticos brasileiros foi compartilharem da crença no desenvolvimento econômico como supremo dissolvente do “atraso” , em versões mais ou menos “igualitárias” – a trajetória do PT, por exemplo, só faz sentido se vista por esta ótica.

O erro, se erro houve (pois, bem ou mal, uma teoria passada não pode dar conta das tarefas do futuro) estava na incapacidade de prever que a “base” econômica, em si mesma, não é capaz de dar direção aos eventos; o desenvolvimento econômico, superposto a relações sociais e políticas atrasadas, só é capaz de gerar um desenvolvimento ….atrasado: a promessa dos arcos de Brasília encontrou sua realização prática… no ecocídio de Belo Monte. Num certo sentido, trata-se de algo que já estava anunciado no aforisma de outro isebiano, Roland Corbisier : “na Colônia, tudo é colonial”. Ou, mais exatamente: desenvolvimento desigual e combinado. Chegamos a um ponto em que temos de reconhecer o simples fato de que nossa modernidade está completa – e, por isso mesmo, desprovida de todo e qualquer elemento progressista (com a exceção recente de um distributivismo limitado, que começa a dar sinais de esgotamento).

E assim, quando em 2012 vemos uma repetição em miniatura das batalhas de rua de 1968, o que faz com que esta repetição não seja uma “farsa” à maneira do 18 Brumário, é que, quando os jovens de 2012 tentam reabrir o processo de 1964, não é apenas o processo de 1964, mas o processo de 1964e de toda a dominação burguesa a ele subsequente, que está em jogo. E, como não se podem criticar os subsequentes sem os precedentes, podemos concluir dizendo que, no limite é toda a nossa história que está em jogo. 

Extraído do Blog do Avelar - http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/04/09/mon-pere-quel-a... 

Excelente matéria Analú, merece ser postada.

Respondendo aqui seu comentário acima por falta de link, penso que o principal fator de passividade e apatia da sociedade em relação aos diversos tipos de crimes praticados no Brasil deve-se a impunidade promovida por parte do nosso judiciário.

Observe esse caso de Goiás, envolvendo senador, governador, políticos, imprensa, crime organizado e diversas autoridades públicas, com fartas provas materiais e o rumo que está sendo dado no judiciário.

Veja mais uma das inúmeras matérias divulgadas pelo Luís Nassif e o ministro que irá julgar um dos processos, já não bastasse o satiagraha!

Ação sobre caça-níqueis em Goiás é examinada por Gilmar

                                  

 

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