Portal Luis Nassif

Todos os que acompanharam o debate nos últimos meses neste Portal, acerca de um texto que publiquei (encontrado aqui: http://blogln.ning.com/forum/topics/como-refutar-uma-teoria?id=2189...), devem ter ficado admirados com a capacidade de se desvirtuar um tema ou um conceito, apresentadas por um defensor do criacionismo, cujo propósito foi impor suas supostas verdades. Na falta de argumentos plausíveis ele apelou, mentiu e poluiu o ambiente. Para ser bem sincero, não houve debate. Não há como se debater com gente que se faz de vítima, que inverte as noções das coisas e que usa de falácias horrorosas para provar o improvável.

Pode-se discutir, como foi feito, a questão da tolerância de credos, de manifestações religiosas, da necessidade da liberdade de expressão, enfim, levar o debate para o campo da conscientização democrática. Muito válido e muito justo. Entretanto, não houve isso aqui, o que vimos foi uma tentativa de desonestidade intelectual das mais ordinárias. Não existe tolerância para isso.

Por essa razão, abro este tópico para apresentar algumas das mentiras difundidas pelos criacionistas, com o objetivo único de eliminar e destruir por completo, de forma desonesta, a teoria da evolução.

Ressalto que a tese do criacionismo foi elaborada nos meios religiosos estadunidenses, com objetivos e definições claros. A sua vertente dita científica é a teoria do design inteligente, que tenta imputar a um criador a explicação para as complexidades dos fenômenos e da existência dos seres vivos.

Vamos às principais mentiras:

1 – O homem veio do macaco: é a mais comum e a mais imposta. É colocada como dúvida por alguns, como um erro de interpretação por outros, mas possui um componente de má-fé ao redor. Diversas pessoas que já conversaram comigo sobre a Teoria da Evolução perguntaram se eu acreditava que o homem tinha vindo do macaco. Os teóricos da Evolução nunca afirmaram isso.

Mas essa postura, disposta assim, revela um asco atávico: não gostamos de ser comparados aos animais.

Todas as nossas manifestações onde o caráter instintivo está presente tentam nos afastar desse parentesco. O que se diz é que não comemos como os animais, não fazemos sexo como os animais, não nos comportamos na sociedade como os animais, mas, enfim, a delimitação entre eles, os animais, e nós, seres humanos é comum e trivial. É muito mais próxima do que parece. Contudo, o curioso é que se percebe que há até uma postura afirmativa por pessoas com certo conhecimento acadêmico nesse sentido.

O fato é que somos, sim, animais, mamíferos, primatas, com parentescos fisiológicos e anatômicos aos macacos atuais. As linhagens evolutivas que resultaram no humano, no chimpanzé, no gorila, no orangotango, no macaco-prego, no mico-leão e todos os símios e aparentados são as mesmas. Não há como fugir disso. Não descendemos dos macacos, estamos é no mesmo clímax evolutivo deles.

2 – Evolução significa melhorias: outro erro recorrente, mas que é repercutido muito mais por confusões do que por má-fé.

Em função de nossa concepção utilitarista do mundo e dos fenômenos que nos rodeiam, essa idéia de evolução como sinônimo de melhor, mais forte e mais rápido é um erro enorme. Aliás, reconheço que o termo gera distorções. O mais adequado seria modificações por herança genética de uma população para outra. E é isso o que é. Ao longo do tempo, em função das mutações que ocorrem no genoma, no código genético de cada organismo vivo, estes mesmos organismos vão se modificando. A pressão do meio, conhecida como seleção natural, faz com que os organismos mais adaptados sobrevivam, deixando uma prole viável. Não existem os bons ou ruins, mas aqueles que, no momento adequado, se expõem.

A evolução não segue um rumo, um caminho definido, ela é uma força que age de forma a tornar a espécie mais bem adaptada ao ambiente, o que não necessariamente significa torná-la mais sofisticada ou complexa.

3 – Não existem provas da Evolução – é outro erro de interpretação. Normalmente os criacionistas, e as pessoas que não compreendem os mecanismos evolutivos, imaginam que deva haver uma sequência lógica, uma cadeia linear. É comum ver-se aquela famosa figura de hominídeos desde o mais ancestral ao mais “evoluído”, um humano em pé. É daí que vem a expressão elo-perdido, que seriam os elementos entre um e outro.

O termo elo-perdido é incorreto. O termo correto é organismos transicionais. Do ponto de vista evolutivo, se formos levar isso em consideração, todos seríamos elos-perdidos. Se fosse possível definir isso como uma fórmula matemática, podemos perguntar quanto números há entre 1 e 2. A resposta é: infinitos. A prova de evolução é exatamente a imensa variabilidade genética que observamos. Um olhar atento num determinado ambiente para qualquer organismo, seja uma samambaia, uma rosa, um cão, um passarinho, ou mesmo olharmos para nós, humanos, podemos observar que somos todos diferentes e cada grupo relacionado a muita igualdade. Na medida em que estas diferenças se acentuem no tempo e no espaço, podemos ter o aparecimento de uma nova espécie, que é definição máxima de Evolução.

A paleontologia está repleta de fósseis transicionais, por mais que os criacionistas e iniciantes digam que não. Só entre os hominídeos há 20 grupos diferentes, cada um com centenas de membros. Mas não só de fósseis vive a evolução. O genoma, o DNA como um todo, comprova o parentesco das espécies. Quanto mais se descobre sobre o genoma, mais se comprova a evolução. Por exemplo, é sabido que os humanos compartilham cerca de 90% dos genes com os dos chimpanzés. Como dizer que não somos parentes? Como dizer que isso não é uma evidência da evolução?

4 – A complexidade irredutível invalida a Evolução – essa é famosa é o carro chefe do pessoal do design inteligente.

Admitindo que a Evolução seja algo que ocorre passo a passo, no tempo e no espaço, isso não explicaria o surgimento de estruturas complexas, como o olho humano, o sistema de coagulação do sangue e as asas do morcego, para ficarmos em itens usados como exemplos pelos criacionistas.

O argumento mais usado para invalidar o processo de Evolução é o da ratoeira e o do relógio, afirmando que a retirada de uma de suas peças invalida o funcionamento do aparelho. Isso provaria, segundo os defensores do design inteligente, que há a necessidade de um relojoeiro ou de um artífice inteligente para “fabricar” estas peças e mantê-las funcionando adequadamente. Esta forma de pensar é a constatação cabal do pensamento utilitarista difundido pelo senso comum e captado pelos criacionistas.

O pescoço da girafa não é comprido porque foi feito para pegar as folhas mais altas. As cores das penas dos pássaros não existem para favorecer o acasalamento. O rabo de alguns micos não é preênsil para que eles se equilibrem nos galhos das arvores. A casca da banana não é assim para proteger o seu miolo. O nosso polegar não existe em oposição aos demais para que possamos pegar coisas. As funções destas determinadas situações ocorrem porque exatamente elas existem e não porque há uma razão ou uma determinação da natureza para que sejam assim.

A pergunta que se faz nesse caso é: o pescoço da garça é comprido para que ela possa pegar peixes na lagoa, ou ela pega peixes na lagoa porque seu pescoço é comprido?

5 – A 2ª. Lei da Termodinâmica invalida a Evolução – essa é a maior farsa de argumento dos criacionistas.

Alguns teóricos criacionistas, usando de má-fé, uma boa salada de palavras e um público neófito foram capazes de remontar o postulado da Lei. Resultado: causaram confusão na platéia e não explicaram devidamente o que isso significa.

O termo Entropia foi uma das palavras mais desgastadas pelos criacionistas nos últimos tempos. Normalmente quem as usa é bem falante. Ou melhor, enrola bem as palavras, de maneira a confundir. Mas à luz de um estudo ginasiano de Ciências, suas falações são facilmente refutáveis. Entropia, em bom português, não é grau de complexidade de um sistema, tampouco atesta seu grau de desordem. Essa definição não é arremedo evolutivo, está em qualquer livro secundarista.

A afirmação dos criacionistas dá conta que o Universo tenderia da ordem à desordem e do mais complexo ao mais simples. Em suma, toda a ladainha criacionista cabe neste aforismo. Mas o postulado definido pela Ciência é simples: “A quantidade de entropia de qualquer sistema isolado termodinamicamente tende a incrementar-se com o tempo, até alcançar um valor máximo.” Em outras palavras, a 2ª. Lei trata do calor em sistemas fechados.

Uma forma simples de definir Entropia é a quantidade de energia que não pode mais ser transformada em trabalho. O Sol é um sistema em constante aumento de entropia, uma vez que suas reações nucleares convertem hidrogênio em helio. Em determinado instante não haverá mais hidrogênio para esta conversão. Usando a concepção de Entropia, pode-se afirmar que o Sol passa de um estado inicial, onde potencialmente realiza trabalho, para um final, onde não poderá mais realizar as suas reações nucleares. Há um aumento de Entropia.

Porém, apesar disso, os átomos que foram sendo produzidos (Helio, carbono e metais diversos) são muito mais complexos em relação ao hidrogênio inicial, o que nos leva a considerar que o aumento de Entropia não significa diminuição da complexidade da matéria, argumento tendencioso criacionista por erro de interpretação da 2ª. Lei da Termodinâmica.

A Termodinâmica não apresenta qualquer relação direta com evolução. Ela é o estudo de trocas de energia e variações de pressão em um meio. Não existe relação entre termodinâmica e evolução (embora processos biológicos estejam relacionados à termodinâmica). Quem afirma isso, obviamente, não sabe o que é termodinâmica. A TE se baseia em alguns pontos básicos:

- as espécies sofrem mutação. Mutação produz variedade.

- as mutações podem ser neutras, negativas ou positivas em relação ao meio.

- Mutações podem ser passadas para as próximas gerações, quando atingem células como ovócitos ou espermatozóides, por exemplo.

- A seleção natural favores mutações que ajudam a sobrevivência do indivíduo, e desfavorece mutações que o prejudicam. Contudo, isso não pode ser confundido com melhorias.

- Mutações acumuladas ao longo do tempo acentuam as diferenças, modificando as espécies continuamente.

Neste porém, ao se querer saber se a termodinâmica pode impedir a evolução de ocorrer, é necessário se fazer algumas perguntas:

- pode a termodinâmica de alguma forma, impedir que mutações ocorram?

- pode impedir que uma mutação seja eventualmente benéfica ao indivíduo?

- pode impedir que essas mutações sejam passadas para a geração seguinte

- pode impedir que mutações se acumulem ao longo das gerações?

- Pode impedir que a seleção natural atue sobre essas mudanças?

A resposta óbvia para qualquer uma dessas perguntas é um sonoro NÂO.

6 – A Teoria da Evolução implica em ateísmo – uma falácia arrogante e prepotente.

É óbvio que a idéia aqui é criar antagonismos desnecessários e inexistentes. Uma vez que a grande maioria dos crentes se mobiliza pelo medo, um medo imposto pelas diversas denominações religiosas para controle de comportamento, surgem dificuldades em um seguidor de um deus aceitar os postulados científicos. Principalmente quando se põem em dúvidas dogmas milenares.

A Ciência e especificamente as ciências biológicas não têm qualquer pretensão em derrubar deuses, crenças, queimar igrejas ou prender seus seguidores (embora não seja uma má idéia, rsrsrs!). O que se faz é expor às pessoas, ao homem comum, as explicações para os fenômenos através das formulações do método científico. As conclusões filosóficas ficam ao critério de cada um.

Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Segunda_Lei_da_Termodin%C3%A2mica

http://pt.wikipedia.org/wiki/Evolu%C3%A7%C3%A3o

Mayr, Ernst. Biologia, Ciência Única: reflexões sobre a autonomia de uma disciplina científica. São Paulo. Companhia das Letras. 2005

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Respostas a este tópico

olha, alexandre, ainda que você alegue que não houve debate, seja o nome que se der ao que aconteceu no tópico anterior, ele provocou esta sua contribuição que, sem dúvida, dá uma boa arrumada na casa e agrega muitas das análises que lá ocorreram.

 

gostei, particularmente, da sua sexta proclamação: o medo como fundamento maior dos criacionistas. sobre ele erguem fortunas. de fato, nem o medo, nem a mentira, constituem filosofia, mas são eficientes para gerar o terrorismo, matéria da qual se alimenta os fundamentalismos religiosos e todas as suas consequências.

 

a fé de cada um, a religiosidade, enquanto elemento cultural e expressão de necessidades espirituais, prescinde do criacionismo. ou seja, prescinde da bárbarie.

 

 

luzete, eu sempre penso num debate de maneira dialética. Mesmo aquela hegeliana. Os prós e contras indo em busca de uma posição de avanço, com construção do conhecimento. O que vimos ali foi uma tentativa de imposição de verdades baseadas na crença e na fé cega.

Eu já debati com crentes "inteligentes", com um bom nível de debate. Não os convenci, e nem era essa a ideia, mas houve uma discussão em que as partes não quiseram impor ordens conceituais.

Nao é resposta ao Alexandre, é um aviso. O comentarista seguinte deixou um enorme número de espaços em branco depois do comentário dele, talvez para induzir os outros a pensarem que nao há mais comentários. Mas há, o tópico continua apesar desses artifícios.

Boa tarde Alexandre!

 

Sempre fui péssimo em ciências [biologia e afins] e, em cima de uma afirmação sua "...As linhagens evolutivas que resultaram no humano, no chimpanzé, no gorila, no orangotango, no macaco-prego, no mico-leão e todos os símios e aparentados são as mesmas. Não há como fugir disso."-, eu perguntaria: 1. Quais foram as linhagens evolutivas que resultaram no ser humano? 2. Se o ser humano está em um linha evolutiva [para melhor ou pior], não seria mais sensato conjugar o verbo "estar" do que "ser", isto é, a natureza e o homem "estariam" e não "seriam"? 3. A natureza e o homem evoluiram a partir do quê e por [para] quê?

 

Um abraço

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esse imenso espaço deixado aqui foi para levar outros a crerem que os comentários tinham acabado com essa sua "brilhante" intervençao? Puxa!

Orlando, boa indagação a sua.

Não existe um consenso a respeito do ancestral comum do H*** sapiens. As espécies extintas que possuem mais características semelhantes à nossa, de acordo com os registros fósseis, seriam o H*** habilis e o H*** erectus, distribuidos no tempo entre 1 a 5 milhões de anos. Presume-se que sejam os nossos ancestrais. Os ancestrais comuns a nós e os demais primatas ainda é ponto de dúvidas.

Mas o problema é mais complexo do que se imagina. A Taxonomia, ramo das ciências biológicas que dá definição às espécies, acaba caindo na tipologia essencial, um argumento científico que tem os seus dias contados. A bem da verdade, é complicado admitirmos espécies estanques, um tipo só dos organismos existentes. A variabilidade genética acaba por derrubar tais propostas.

Eu estou organizando um outro artigo que trata adequadamente disso, da especiação, a forma como se caracteriza os organismos vivos.

A respeito de sua última indagação, da razão de evolução, eu afirmo que não há um propósito. Como eu afirmei no texto do tópico, não há uma utilidade.  Isso é o que choca algumas instituições filosóficas.

Bom dia Alexandre?

 

De onde surgiram o homem e natureza? Dessa maneira a teoria da evolução [que eu acredito], está na mesma situação daquele passageiro que pega o trem no meio do caminho e: 1. não sabe para onde vai, 2. não sabe de onde veio e 3. quer dizer ao cara que dirige o trem o quê fazer. 

Em tudo isso, é inegável que algo [vida/natureza] existe. E a pergunta é de onde surgiu  explicaria o por quê. Ademais, por que não temos pares, isto é, outros seres que sejam tão capazes [senso moral/certo errado/inteligência] quanto o homem - isso por mais que os outros animais [macacos, ameba, cachorros] sejam, também, de uma maneira ou de outra, inteligentes.

 

 

Um abraço

Géber, talvez se você lesse a primeira mentira...

Pode ir, não dói.

Alexandre,

 Pensando com meu zíperes e velcros (afinal, os botões tb evoluíram), não seria legal falar um pouco de árvores filogenéticas?

 []s

Claro, tem muita coisa aí. Estou esperando o momento.
Minha avó diria: quem olha o feio é porque não usa óculos.
Géber, honestamente, eu ainda não sei onde você quer chegar com essa arenga toda. Seria interessante você ler as postagens, pois, pelo visto, apenas passou os olhos por cima.

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