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26/04/2012

O código de um grupo contra toda sociedade

Com justificável desalento, após  a aprovação do Código Florestal na Câmara, nesta 4ª feira, membros do Greenpeace classificaram o agronegócio brasileiro como o maior partido do país. O desabafo é compreensível quando 274 votantes, de um total de 458, sonegam à sociedade salvaguardas ambientais minimamente contempladas na versão do projeto egressa do Senado. A identificação entre aritmética e hegemonia porém é equivocada. Ser um grande partido requer justamente o oposto do que caracterizou o espetáculo de ganância obtusa propiciado pelo Legislativo federal.
O corporativismo pequeno personificado no relator da Câmara, deputado Piau (PMDB-MG), distingue-se da liderança política, entre outras coisas, pela incapacidade de dar a seus interesses uma grandeza que incorpore parcela expressiva dos anseios da sociedade de uma época.
Desguarnecer a proteção dos grandes rios brasileiros; desdenhar da mesma proteção no caso de vertedouros urbanos; sancionar a devastação com anistia a grandes desmatadores e tornar dúbia a fiscalização coercitiva numa transferência de responsabilidade a esferas da federação desprovidas de meios para exercê-las, configura mais um golpe de um grupo contra a sociedade do que um projeto capaz de pavimentar o seu futuro.
O futuro é a maior vítima da lógica corporativa que se contradiz nos seus próprios termos. Abala-se frequentemente o agronegócio brasileiro a ostentar sua proficiência produtiva. Não raro, utiliza-a como argumento para descredenciar a pertinência da reforma agrária que no século XXI já não se ampara exclusivamente no relevante objetivo produtivista, assumindo também dimensões de política populacional e instrumento de ocupação sustentável do território.
O Brasil de fato notabiliza-se pela indiscutível competência agrícola. Subsídios estatais de fomento e pesquisa foram generosamente investido com esse fim. A Embrapa, um órgão estatal de pesquisa, é o maior centro de conhecimento  em agricultura tropical do planeta. Nos últimos 20 anos a oferta agrícola cresceu 155%; a expansão da área plantada no país foi de apenas 22%. A demanda mundial de alimentos deve saltar 20% nesta década; as projeções internacionais indicam que 40% da oferta correspondente virá do plantio brasileiro. Se a eficiência é indiscutível, seu custo social nem sempre é reconhecido: um processo acelerado de expulsão da terra impulsionado durante a ditadura militar gerou no país a urbanização caótica que hoje penaliza a sociedade em diversas frentes.
O  Brasil favelado equivale a um Portugal inteiro: 11,5 milhões de pessoas vivendo em 6.300 núcleos precários.  A abundância da colheita não se fez acompanhar do equilíbrio na distribuição: coube ao governo Lula criar um programa de combate à miséria, amplificado pela Presidenta Dilma, que hoje atende mais de 12 milhões de famílias. De outra forma, 50 milhões de brasileiros não teriam o que comer, apesar das supersafras no campo.
Antes de sancionar, como querem seus porta-vozes, a competência produtiva desautoriza a ganância inscrita no projeto de Código Florestal. Cálculos do próprio agronegócio indicam que o Brasil tem 96 milhões de hectares de pastagens agricultáveis, área superior a tudo o que é cultivado hoje  --cerca de 70 milhões de hectares. Basta elevar a eficiência da pecuária extensiva para liberar espaços subutilizados em benefício da oferta adicional de alimentos. Qual o sentido então de se ocupar encostas com gado, como prevê o Código aprovado esta semana? Ou acanhar a exigência de reserva legal em  regiões da Amazônia?
A capacidade de organizar um futuro crível e inclusivo distingue uma força social portadora de liderança histórica de um mero ajuntamento guiado por lógica autoreferente. O capital financeiro hoje domina a vida econômica do planeta em crise; caracteriza-se  mais como uma ameaça à sociedade do que um lastro de ordenação do seu  bem-estar e desenvolvimento.
A irresponsabilidade ambiental  que o ruralismo pretende impor ao país evidencia identico paradoxo. Trata-se de  um poder econômico que deixado à própria sorte transforma-se em força anti-social. Deve ser objeto do mesmo enquadramento e veto estatal preconizado contra a desregulação financeira; um direito da democracia contra as imposições de um grupo sobre os interesses de toda a sociedade.

Postado por Saul Leblon às 18:57

http://cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&po...

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Respostas a este tópico

Dá um desânimo... 

Os muros das universidades PÚBLICAS devem se abrir...Política e universidade deve produzir os caminhos pró sociedade. Não pró capital.

Analú,

Não recebi por e-mail seu comentário acima. Recebi o do Ricardo Miguel.

Pois é. Nem eu recebi esse seu. Em outro tópico, recebi um do Gunter mas nao um da Ivone, no mesmo tópico! É um saco isso, porque nao dá para confiar no sistema de avisos. 

Webster, você poderia fazer relato de acontecimento sobre isso? Já fiz duas reclamaçoes de nao estar recebendo, seria bom você mostrar que outros tb nao estao recebendo avisos dos meus comentários. Há algo errado nisso, e está acontecendo particularmente comigo. 

Pelo visto a falha que está acontecendo com você é intermitente, pois recebi por e-mail esta última mensagem sua. Verifique se existe algum problema com o seu navegador, digo isto porque ontem um amigo me ligou de Brasília para instruí-lo como fazer para se cadastrar no site da receita federal para acessar o extrato da DIRPF e fiquei no fone com ele passando as instruções. Após preencher todos os dados requeridos vinha a mensagem apresentando erro no preenchimento. Depois de indas e vindas perguntei a ele qual o navegador que estava usando, me informou que era o firefox, lhe sugeri que entrasse com o internet explorer e deu certo.

De qualquer forma, farei o relato solicitado. Abs    

Obrigada. Isso está me chateando, e como já tive vários episódios estranhos aqui no Ning, fico com a pulga atrás da orelha. 

Acabo de receber, agora, 20 horas depois, o aviso deste seu comentário... E estou recebendo vários, de vários dias atrás. Acho que as reclamaçoes (minha, sua, da Ivone) funcionaram, esperemos. 

Também estou recebendo e-mails de comentários com dias de atraso, seu e de outros comentaristas. 

Lendo agora a respeito destes comentários EU tb. não estou recebendo,

mas  creio que não é contigo ANALù,

pois  às vezes recebo avisos dois ou três dias depois.

CHATO, foi uma solicitação de amigo, que recebi um tempão depois.

O que será isto??

Chato mesmo. Alguém nos diz algo, nao recebemos o aviso, e aí muitas vezes nao vemos, pois, como seguimos o tópico, nao nos preocupamos em voltar lá sistematicamente. Pedido de amizade tb é muito chato, pois a pessoa pode achar que nao foi aceita. A manutençao do Portal nao anda boa. 

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