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Por Alessandra Safra (escritora, autora de "Dedos Não Brocham")


Pode parecer estranho abrir uma discussão sobre um reality show na categoria "meio ambiente". Mas em se tratando de um programa que tinha pretensões educacionais e ecológicas, creio que vale a pena entender melhor este caso. Vamos a ele:


No começo de 2012, os brasileiros foram brindados com o lançamento do programa "Amazônia", comandado pelo ator e ativista ambiental Victor Fasano. Reunindo doze personalidades das mais distintas áreas, o programa tinha clara proposta educativa e chamava a atenção para a preservação das florestas e a importância da ecossustentabilidade. Alguns episódios foram especialmente emocionantes, como quando os participantes foram desafiados a construir fossas sanitárias para uma vila ribeirinha. Pela primeira vez, tivemos a oportunidade de presenciar um reality show dedicado a uma causa social e ambiental. A proposta de "Amazônia" envolvia a doação de metade do prêmio do vencedor para ONGs dedicadas a questões ecológicas. Altamente louvável, em tempos de Big Brother e outros lixos.


Lamentavelmente, a final do programa ficou muito aquém de sua proposta e conseguiu macular o brilho do documentário. O que pudemos verificar é - na melhor das hipóteses - a mais absoluta confusão e desorganização saltando aos olhos dos telespectadores.


O último episódio do programa teve como protagonistas o campeão olímpico de vôlei Pampa, o ex-piloto de fórmula 1 Tarso Marques, o surfista Picuruta Salazar e o astrólogo e estudante de filosofia e astronomia da USP Alexey Magnavita. Quem acompanhou o episódio, pôde verificar que Magnavita foi a “zebra” do programa, pois se esperava que a modelo Carolina Magalhães estivesse na semifinal. Carolina era claramente uma das favoritas do programa, sendo constantemente posta em evidência pelas edições. Ela, entretanto, errou uma questão importante, abrindo espaço para a presença do estudante (inicialmente empatado com a dj Vivian Seixas, que foi logo eliminada).


A prova final do reality consistiu num jogo de perguntas e respostas em que os participantes já começavam com uma pontuação prévia, resultante de todos os desafios realizados ao longo de suas aventuras na Amazônia. O escore inicial era:

Picuruta Salazar: 240 pontos.

Tarso Marques: 215 pontos.

Pampa do Vôlei: 210 pontos.

Alexey Magnavita: 205 pontos.


As regras da final foram fornecidas:

Numa primeira etapa, dicas seriam dadas para uma questão. O participante que apertasse primeiro o botão, teria o direito de responder. Quanto mais dicas fossem dadas, menos valeria a pergunta. Se o participante acertasse a questão com a primeira dica, ganharia 8 pontos. Se acertasse com a segunda dica, ganharia 7 pontos e assim por diante, sempre em ordem decrescente de valor.


Desde o início, foi possível perceber que a imprevisível entrada de Alexey Magnavita se tornou a mais poderosa ameaça aos outros candidatos. Demonstrando agilidade mental surpreendente, Magnavita respondia as questões antes mesmo de elas serem concluídas, dando pouca oportunidade de reação aos seus oponentes. Pesquisando sua biografia, é fácil compreender: Magnavita é membro da MENSA, uma associação na qual apenas superdotados são admitidos. O estudante se equivocou em apenas uma questão. Rapidamente ultrapassou Pampa do Vôlei e Tarso Marques, convertendo-se em segundo lugar na soma dos pontos e em claro favorito à vitória da primeira edição do reality show “Amazônia”.


Na primeira etapa já foi possível perceber o que na melhor das hipóteses pode ser interpretado como confusão. Uma das questões abordou um passeio realizado pelos participantes e inquiria sobre o nome do lugar. O piloto Tarso Marques hesitantemente respondeu “Parque dos macacos”, e teve sua resposta validada na dica que valia 3 pontos. Entretanto, o nome correto do lugar é “Fundação Floresta Viva – Amazon Eco Park”, conforme reclamaram diversos telespectadores nas redes sociais. Por motivos desconhecidos, o apresentador Victor Fasano aceitou a resposta incorreta, o que gerou algumas vaias da plateia (as vaias podem ser claramente ouvidas na edição do programa). A TV Record foi consultada sobre isso pelo jornalista Fernando Oliveira, responsável pelo blog “Na TV” do portal Ig, e respondeu o seguinte:


“A direção do  programa AMAZÔNIA, diante das dúvidas levantadas,  reviu os acontecimentos do último episódio do programa e reafirma a validade de todas as respostas consideradas corretas dadas durante a final do reality. Com isso o participante Tarso Marques é o vencedor legítimo do programa e dividiu seu prêmio  com comunidades ribeirinhas assistidas pela Amazonastur e com FAS (Fundação Amazônia Sustentável), conforme previa o regulamento de Amazônia.”


Entretanto, ainda que consideremos a resposta dada pelo participante Tarso Marques como sendo correta, há outro ponto a considerar: o empate técnico entre o piloto e o participante Alexey Magnavita.


Na segunda etapa do jogo, as regras eram distintas. Cada pergunta valia 5 pontos, mas se o participante apertasse o botão e errasse a questão, ele perderia 5 pontos ao invés de ganhar. Magnavita respondeu a 3 questões corretamente, e Tarso Marques a 4.


Ao final do quiz, ambos pontuavam exatos 238 pontos. Nenhum placar mostra a evolução dos pontos, é preciso atenção e disposição para somar ponto a ponto. Quando Alexey Magnavita foi eliminado, isso causou estranheza geral, mas pelo visto nem mesmo o eliminado tinha ciência de quantos pontos tinha acumulado. Procurado para dar seu depoimento, Alexey respondeu:


“Tomei um susto ao assistir o programa e constatar que, em verdade, obtive o mesmo número de pontos que Tarso. Assim que o programa terminou, às 1h da manhã, meu celular começou a tocar, pois outros telespectadores se deram conta do mesmo problema. A direção da Endemol me disse que no meu contrato consta que em caso de empate eles poderiam desempatar a partir de critérios internos. Bem, isto não consta no meu contrato. E qualquer critério de desempate precisa ser exposto com clareza, pois o público fica confuso, e agora sou eu quem fica exposto em rede pública de televisão como um idiota. Isso para dizer o mínimo, pois há quem insinue que eu sou conivente com o erro mostrado. O apresentador declara que Tarso tem 238 pontos. Ok. Mas qualquer um que somar os meus, verá que também são 238. Empatamos."


Questionado sobre detalhes dos bastidores do reality show, Magnavita se recusou a fornecê-los. Disse: "No que concerne aos bastidores, sou proibido contratualmente de dizer qualquer coisa, e seria anti-ético da minha parte fazê-lo. Mas no que diz respeito à minha queixa, ela não fere nenhum dos princípios constantes no contrato. Não estou revelando nada dos bastidores do programa, e sim falando de algo que o Brasil inteiro teve a oportunidade de ver. E quem começou a reclamar nem fui eu. Foram os telespectadores."


O que se evidencia é um claro prejuízo aos participantes e um desapontamento geral dos telespectadores. O estudante Alexey Magnavita foi o maior prejudicado em decorrência de uma mal explicada eliminação. Por sua vez, Tarso Marques também termina sendo moralmente prejudicado, ficando com a pecha de ter vencido de forma confusa ou manipulada. O finalista Picuruta Salazar também foi prejudicado: ele perdeu de Marques, mas teria perdido de Magnavita? É impossível afirmar com certeza.


Prejuizo também ao telespectador, que constata o erro de algumas respostas e as vê validadas como corretas. Que constata o erro matemático que levou à eliminação de Alexey. Que constata o tratamento diferenciado dado a uns, e não a outros. Tarso Marques, por exemplo, num dado momento erra uma pergunta, mas o apresentador lhe concede nova oportunidade para responder. Por que uma nova oportunidade também não foi fornecida a Carolina Magalhães?


“Amazônia” foi propagandeado como sendo um reality show cuja proposta se diferenciava dos demais programas do gênero, por ter um conteúdo educativo. De fato, ao longo de suas doze edições, foi impecável em sua proposta, chamando a atenção para a preservação da floresta amazônica, tendo episódios memoráveis, como uma passeata em Manaus em defesa do atual código florestal liderada por Alexey Magnavita e Carolina Magalhães. Tarso Marques também se destacou por sua grande habilidade física e espírito competitivo. Picuruta Salazar foi eleito o "campeão moral" do reality, e era o visível favorito de todos. É lamentável que em seu último episódio o programa ofereça ao telespectador tamanha confusão constrangedora.


Ficam três questões: um game show não deveria ter uma auditoria que viabilizasse a honestidade dos resultados? Magnavita e Salazar deveriam pleitear na justiça uma reparação a este equívoco? Creio que sim, afinal de contas como podemos falar em lutar pelas florestas, se não lutamos por preceitos éticos básicos tais quais a lisura e a transparência num simples jogo? E o mais importante: que falta de consideração para com o telespectador realizar a final de um reality show ecológico num programa de auditório, pautando a vitória num jogo que não demanda nenhuma experiência na selva! Qualquer um que decorasse um livro poderia vencer a final. E, pelo visto, fornecendo respostas imprecisas.

 

Para assistir ao programa que mostra a Fundação Floresta Viva – Amazon EcoPark (chamada erroneamente por Marques de “Parque dos macacos”), clique aqui e vá diretamente para os 3:38 do vídeo:

http://entretenimento.r7.com/amazonia/video/?equipes-trabalham-para-melhorar-o-cotidiano-das-comunidades-ribeirinhas-veja-na-integra--4f2ebd2e3d14ad0bc9216c3a

 

Veja a íntegra do último episódio, mas assista com papel e caneta e some os pontos, principalmente os do Alexey. E não deixe de ver o anúncio do segundo finalista, quando Fasano diz: "com 238 pontos, Tarso!" E os 238 pontos do Alexey? Por que não são citados?

http://entretenimento.r7.com/amazonia/noticias/veja-a-integra-do-ultimo-episodio-do-reality-amazonia/

 

E não, não estamos aqui discutindo se realities são válidos ou não. O ponto focal é outro: até quando vamos ficar quietos diante de injustiças que ocorrem na nossa frente? Lute pelas florestas, mas antes de tudo lute por um mundo justo!


Segue um abaixo-assinado com o objetivo de protestar contra a final deste programa:

http://www.peticaopublica.com.br/?pi=AMAZON12

Tags: Amazônia, reality

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Respostas a este tópico

Alessandra, a combinaçao do tamanho desse texto com o tamanho da letra torna a leitura impossível. Se você quer falar com os outros, seria melhor rever isso... 

Tem razão! Corrigido.

Alessandra, foi legal você aumentar a letra, e pude ler finalmente. Mas francamente, tem tanta coisa séria errada neste país, que nao estou muito preocupada nao com resultados injustos de reality shows... 

Entendo seu ponto, Anarquista, mas é justamente quando deixamos passar as pequenas injustiças que as grandes se tornam imbatíveis.

Abraço!

Um abraço para você tb. 

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