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Permalink Responder até Rogério Maestri em 7 janeiro 2012 at 2:30
Militão
Ótima recomendação, não conhecia o documentário e o assisti todo ele inteiro e acho que há duas coisas que ele deixa claro, primeiro que a escravidão não foi a originada pelo racismo, mas sim que o racismo que se originou do fato econômico que poderíamos chamar a neo-escravidão (não devemos esquecer que na antiguidade européia os escravos eram brancos). Segundo, que ainda motivos econômicos levam a perpetuação da disparidade entre negros e brancos, por exemplo, não se faz uma boa escola pública não porque a maioria dos negras a cursam, mas porque ela é cara!
Outro fato importante, que não tinha me dado conta até hoje, é que o racismo no mundo começou a ser considerado algo abominável pela maioria dos Estados, somente quando uma minoria "racial" (entre aspas porque o emprego do termo é uma besteira) que sofreu o efeito do racismo era uma minoria com determinado grau de riqueza, os judeus! Logo, a besta do racismo mata milhões em todo o mundo, estes genocídios são escondidos e ninguém fala, só se começa a falar em racismo, genocídio depois das bestas nazistas.
Permalink Responder até Hermê em 9 janeiro 2012 at 6:21
Caro Militão
Obrigado pela dica. Quer dizer, obrigado o cacete: tive que tomar um porre depois de assistir os três episódios, para recuperar minhas esperanças na espécie humana (por que falam em ''raça humana''?). Evidentemente, o porre não resolveu. Salvei-me foi com a constatação de que hoje em dia, pelo menos, uma TV pública divulga este tipo de reflexão.
Aliás, diga-se, precisamos desesperadamente de uma TV pública atuante! Acho que poderia jogar um papel ainda mais decisivo do que o da incensada blogosfera.
Caro Maestri
Há tempos eu o provoquei perguntando se você achava que as idéias mudavam o mundo. Eu afirmei que, ao contrário, é o mundo que muda as idéias. No documentário percebemos de forma cristalina que os ingleses não praticaram a escravidão porque eram racistas, mas tornaram-se racistas porque praticaram a escravidão, como você assinala, e eu também achei o ponto mais feliz do vídeo. Creio que se trata da lição mais básica do materialismo histórico, que até engenheiros podem entender. Não é?
Este ponto, acredito, deveria ser exaustivamente discutido neste fórum, onde andamos encontrando excessivas manifestações de idealismo barato (como a auto-ajuda, por exemplo). Creio que haverá oportunidade para isso na discussão que o Gunter promete, sobre o politicamente correto.
abraços a ambos
Permalink Responder até Rogério Maestri em 9 janeiro 2012 at 10:59
Caro Hermê
Apesar de ser um "engenheiro", criaturas abjetas que não tem noção de nada que se passa ou passou pelo mundo, o que aqui vos fala (ou escreve) é irmão de um historiador que tem alguns livrinhos publicados sobre escravidão (negra e européia), logo não fica abobalhado quando vê fatos sobre a escravidão. Inclusive fazendo uma ligação com outro assunto que discutimos no fórum (em outro item) o assunto já foi discutido exaustivamente em reuniões familiares onde quase se bate com um porrete na cabeça um do outro. E não pense que por um ser historiador, os manos ficam embevecido escutando qualquer coisa que o dito historiador fala.
Mas indo para a segunda parte do comentário, não sou adepto do determinismo histórico, como muitas pessoas falam, negar o papel das idéias na mudança da sociedade é simplesmente jogar no lixo todos os teóricos que escreveram sobre o tema. Não deves confundir a análise histórica com projeções para o futuro com auto-ajuda.
Não sei até que ponto o materialismo histórico, utilizado na sua forma mais primária, sirva como uma solução e uma interpretação para tudo. O materialismo histórico é baseado numa concepção filosófica que tem muitíssimos méritos mas o mecanicismo de seu emprego em sociedades que tentaram uma saída socialista, levaram a distorções que não estavam previstas na teoria, talvez tenhamos que repensar o mesmo exatamente interpretando o porquê da falha do mesmo na tentativa de implantação de sociedades socialistas.
Lembro que dentre as tentativas de implantação de sociedades socialistas tivemos também tentativas de alteração dos rumos da estrutura prevista em função da resistência do ser humano em abrir mão de certas prerrogativas, Mao Tsé-Tung no seu famoso Livro vermelho diz: "Existem pelo menos dois tipos básicos de contradição: contradições antagônicas que existem entre países comunistas e capitalistas e seus vizinhos e entre os povos e os inimigos do povo, e as contradições entre as próprias pessoas, as pessoas não estão convencidos do novo caminho da China, que deve ser tratado de forma democrática e não antagônicas." e somente diz isto, pois a forma democrática empregada pela revolução cultural teve tudo mas nada de democrática.
Talvez esta imagem mecanicista que o "materialismo dialético" tenta passar como solução de todas as contradições, sem pensar no ideário das pessoas, seja a verdadeira contradição, pois, instituído um regime de partido único e burocratizado, a tendência de se perder ao longo do tempo a chance para a discussão abafa qualquer forma de democrática e não antagônica dessa.
Poderias dizer, como todos os bons teóricos atuais, que a evolução da sociedade sobre o ponto de vista do materialismo histórico, passa primeiro por uma sociedade capitalista, e que os exemplos históricos que foram tentados estavam baseados em sociedades pré-capitalistas. Esta explicação é mais uma desculpa do que uma realidade, mas isto é outro assunto e já derivei muito da discussão original (e bota desvio nisto, ficou quase como um samba do Maestri doido!).
Permalink Responder até Rogério Maestri em 9 janeiro 2012 at 12:54
O que é verdade, a última frase?
Permalink Responder até Hermê em 10 janeiro 2012 at 2:05
(em tempo: imaginei que você soubesse que a minha formação também é de engenharia)
Por isso que eu digo que engenheiro tem cura, mas para economista, a cura é mais difícil.
Permalink Responder até Anarquista Lúcida em 9 janeiro 2012 at 20:47
Isso (o determinismo cego) nao está de acordo nem com alguns dos melhores teóricos marxistas. Gramsci desmente isso. Althusser desmente isso. Bourdieu, sem dúvida. E acho que nem Marx assinaria embaixo de um determinismo NAO DIALÉTICO. Marxismo é uma coisa. Os usos feitos dele sao outra bem diferente.
Permalink Responder até Rogério Maestri em 9 janeiro 2012 at 21:09
De novo vem Gramsci, Althusser, Bourdieu e Marx. Concordo com a maioria dos autores, mas jogar seus nomes no meio de um texto que deveria ser lido por uma quantidade de pessoas que não conhecem alguns desses nomes, é uma mera demonstração do tipo:
-Olha como eu sou culta e vocês são bobinhos.
Ana Lú, isto é sério, ou somos mais didáticos (por isto coloquei a frase entre parênteses no meu texto) ou vamos ficar poucos neste fórum.
Permalink Responder até Anarquista Lúcida em 9 janeiro 2012 at 22:57
Concordo (diferentemente de "alguém", eu reconheço quando os outros me fazem críticas válidas...) Mas é que desenvolver isso seria longo...
Em grosso: dialética acho que dá para todos saberem, nao? Significa que as coisas nao sao unilaterais (X causa Y) mas que há "efeitos de reversao": X causa Y, mas Y influi em X.
Em Gramsci, isso toma a forma do conceito de hegemonia. Vou postar aqui um trechinho do verbete sobre Gramsci na Wikipédia, óbvio que nao é a melhor fonte, mas dá para uma primeira visao:
Gramsci é famoso principalmente pela elaboração do conceito de hegemonia e bloco hegemónico, e também por focar o estudo dos aspectos culturais da sociedade (a chamada super-estrutura no marxismo clássico) como elemento a partir do qual se poderia realizar uma acção política e como uma das formas de criar e reproduzir a hegemonia.
Alcunhado em alguns meios como o “marxista das super-estruturas”, Gramsci atribuiu um papel central à diálise infra-estrutura (base real da sociedade, que inclui forças de produção e relações sociais de produção)/ super-estrutura ("ideologia", constituída pelas instituições, sistemas de ideias, doutrinas e crenças de uma sociedade), a partir do conceito de "bloco hegemónico".
Segundo esse conceito, o poder das classes dominantes sobre o proletariado e todas as classes dominadas dentro do modo de produção capitalista, não reside simplesmente no controlo dos aparatos repressivos do Estado. Se assim fosse, tal poder seria relativamente fácil de derrocar (bastaria que fosse atacado por uma força armada equivalente ou superior que trabalhasse para o proletariado). Este poder é garantido fundamentalmente pela "hegemonia" cultural que as classes dominantes logram exercer sobre as dominadas, através do controlo do sistema educacional, das instituições religiosas e dos meios de comunicação. Usando deste controlo, as classes dominantes "educam" os dominados para que estes vivam em submissão às primeiras como algo natural e conveniente, inibindo assim sua potencialidade revolucionária. Assim, por exemplo, em nome da "nação" ou da "pátria", as classes dominantes criam no povo o sentimento de identificação com elas, de união sagrada com os exploradores, contra um inimigo exterior e a favor de um suposto "destino nacional". Assim se forma um "bloco hegemónico" que amalgama a todas as classes sociais em torno de um projecto burguês.
Outra resposta, que deve ser de uma estudante, no Yahoo respostas, simplizinha mas que vai direto ao ponto:
Segundo as teses de Gramsci, é a prática política da classe dominante, no seio das sociedades capitalistas avançadas, visando suscitar o consentimento activo dos dominados, através da elaboração de uma função ideológica particular que visa a constituição da ficção de um interesse geral. É o exercício não coercitivo do domínio e da dominação de classe, nomeadamente pela hegemonia ideológica. Porque a dominação de classe pode fazer adoptar os seus valores e as suas convicções pela restante sociedade através de instâncias de socialização sem ter de recorrer à força ou à repressão.
Althusser tem o conceito de subredeterminaçao e/ou determinaçao em última instância. Os textos que encontrei sobre ele na pesquisa Google sao muito grandes, mas acho que este pedacinho aqui esclarece o principal:
Igualmente, Althusser rompe com a concepção de que para Marx o "motor" do processo social e histórico seria o desenvolvimento das forças produtivas, de tal sorte que um progresso linear em direção ao comunismo já estaria inscrito na história como destino inelutável. Rompendo com essa concepção teleológica e economicista, Althusser mostra que Marx, especialmente em O capital, sustenta o primado das relações de produção, abrindo a história para as incertezas da luta de classes. Dessa leitura de Marx, que põe no centro de sua concepção a luta de classes, Althusser recupera a noção de determinação em última instância do econômico, dando assim às instâncias da superestrutura uma eficácia própria que pode permitir a elas jogar o papel dominante na reprodução das relações sociais. A dialética marxiana, assim, é o contrário direto da dialética hegeliana, na qual a contradição se apresenta como o desdobramento de um princípio interno simples, ao passo que em Marx ela é sempre sobredeterminada, isto é, a contradição nunca se apresenta pura, mas como uma conjunção de determinações eficazes incidindo sobre um determinado objeto. Althusser criticou também a concepção de ideologia como falsa consciência, compreendendo-a como "uma representação da relação imaginária dos indivíduos com as relações de produção e com as relações delas derivadas", e lhe emprestando uma irredutível materialidade, tal como aparece no conceito de Aparelhos Ideológicos de Estado, que veio permitir que a concepção marxiana de Estado fosse ampliada e aprofundada. a
Permalink Responder até Rogério Maestri em 9 janeiro 2012 at 23:44
Agora gostei!
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