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Podemos concordar ou não com a iniciativa do Presidente Lula de, ao lado da Turquia, participar diretamente dos esforços em busca de uma solução para a séria crise gerada pelo programa nuclear do Irã.

Há quem a defina como ingênua, precipitada ou ousada, mas ninguém pode negar que a chamada governança mundial precisa de novas estruturas, novas lideranças e paradigmas e Lula está a indicar novas possibilidades ao mundo. Penso que o Brasil nasceu para ser protagonista e se ainda não o é de forma consolidada a responsabilidade é da sua elite subserviente e dependente. Mas o povo não, o povo brasileiro é criativo, de espirito libertário e generoso.

Benjamin Steibruch escreveu na Folha de S.Paulo, em 1.6.2010 que uma frase de Lula diz muito a respeito dessa questão: "O mundo já não é o mesmo do tempo em que as decisões eram tomadas por Churchill, Stálin e Roosevelt", isso é uma verdade e merece reflexão séria, pois a lógica global, também chamada de governança mundial, montada no pós-guerra, não pode mais ser tida como adequada, pois as forças políticas e econômicas mudaram nos últimos 65 anos. Alemanha e Japão, derrotados na II Guerra, foram beneficiados pelos planos de reconstrução e transformaram-se em potências econômicas, mas continuam fora do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, o que é inexplicável sob o viés democrático ou econômico, que segue dominado pelos cinco grandes países vencedores da Segunda Guerra Mundial: Estados Unidos, China, Reino Unido, França e Rússia.

Os quatro grandes emergentes, conhecidos como Brics, responderam por metade do crescimento global de 2000 a 2008 e, segundo as previsões, serão responsáveis por dois terços da expansão de produção esperada para os próximos cinco anos, mas apesar disso Brasil e Índia não têm voz nem voto proporcionais ao seu tamanho e importância nos dias de hoje. Por que?

Já escrevi que organismos de governança na área financeira, como o FMI e o Banco Mundial, também criados no pós-guerra, são impotentes para enfrentar as crises dos tempos de globalização. Só para ter uma ideia, o BNDES brasileiro empresta hoje mais recursos do que o Banco Mundial. Na crise americana de 2008 e na atual da Europa, o FMI teve participação secundária, por falta de influência e recursos financeiros. E o artigo de Steibruch ressalta que na área social, a ineficiência da governança mundial é literalmente dramática, pois milhões de pessoas passam fome diariamente em países pobres, principalmente na África, sem que a FAO, organização da ONU que cuida de agricultura e alimentação, tenha condição de fazer alguma coisa para distribuir os excessos de produção de alimentos que existem pelo mundo.

O mundo claramente está a demandar uma administração mais moderna, eficiente e representativa das atuais forças políticas e econômicas e que incorpore politicas sociais, afinal o que deve ser tutelado é a humanidade e a comunidade internacional não é mais constituída pela voz dos EUA e da Europa, quem não acredita nisso deve assistir os belos filmes do canadense Denys Arcand especialmente O DECLINIO DO IMPÉRIO AMERICANO, filme que gerou o sucesso ‘As Invasões Bárbaras’ (que nos apresenta idéias inteligentes, especialmente relacionadas às crises financeiras e da lógica global).

Assistir o filme de Denys Arcand "O DECLINIO DO IMPÉRIO AMERICANO" é uma boa idéia sempre. Le Déclin de L'Empire Americain é um filme imperdível... O filme é de 1.986, e tudo acontece enquanto os professores de História Rémy, Pierre, Claude e Alain preparam um saboroso jantar no campo, às margens do lago canadense Memphremagog, as amigas Dominique, Louise, Diane e Danielle fazem exercícios de musculação. Sob o suave outono, os intelectuais vislumbram o declínio quase invisível de um grande império, constatação revelada pelo desprezo pelas instituições, decadência das elites e queda da natalidade, etc., seriam os sinais crepusculares, segundo o diretor. Além disso como a obra apresenta a idéia de que com a destruição do sonho marxista-leninista, e a inexistência de outro modelo de sociedade sob o qual se nos parecesse válida a existência, tudo perderia o sentido... Mas o que perdeu o sentido foi toda a lógica do pós-guerra.

Dai porque os críticos de Lula estão errados quando o chamam de ingênuo. Pois há um mundo novo ai fora e não há dúvida que o Brasil tem o direito de reivindicar um novo papel internacional, adequado à sua condição de potência emergente, onde o povo enquanto povo é muto melhor que a elite enquanto elite.

Há um belo artigo que merece ser lido. O autor é Robert Naiman é diretor de Política, de Just Foreign Policy e chama-se “Presidente Obama, negocie com o Irã sem precondições!”, e é parte de uma campanha de cidadãos nos EUA, organizada pelo blog pacifista “Just Foreign Policy”, sob o mote “Escreva ao presidente Obama e diga: Presidente, não tenha medo de negociar sem precondições com o Irã”. Detalhes da campanha e uma carta-modelo a ser enviada ao presidente Obama, são encontrados em “Democracy in Action” (http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/presidente-obama-negocie-sem-precondicoes-com-o-ira.html), o proprio ex-Ministro Bresser Pereira afirma que o Brasil tem o direito de reivindicar um novo papel internacional http://www.bresserpereira.org.br/Terceiros/2010/10.06.A%20bola%20da...

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Respostas a este tópico

Belo texto, só acrescentaria um comentário. A liderança de um país se dá não somente por fatores econômicos e militares, se dá também pela capacidade deste de ganhar os corações e mentes dos outros países, e este ganho tem pré-requisitos que talvez somente os Brasil os tenha.

Na saída da Segunda Grande Guerra Mundial, os países como Estados Unidos, Inglaterra e URSS tinham um patrimônio mundial por terem vencido as forças nazi-fascistas. Os Americanos posavam como grandes libertadores e com o plano Marshall conseguiram um status de reconstrutores da Europa, entretanto com o tempo, o passado de intervenção e a sucessão de guerras bancadas por eles e seus aliados foram aos poucos corroendo a sua imagem, e hoje excetuando uma pequena parte da população que vê Miami como a sua segunda ou primeira casa ninguém confia mais nas intenções norte-americanas. A cultura norte-americana, que por muito tempo atraiu imensa parte da pequena burguesia mundial não atrai mais ninguém. O “american way of life” que era sinônimo de prosperidade, virou sinônimo de esbanjamento de recursos naturais, disparidade social, discriminação e falência.

Estamos num momento de estabelecer um novo paradigma, talvez uma sociedade que tenha por base a solidariedade, o respeito aos seus vizinhos e o reconhecimento internacional de um país que não deseja agredir aos outros seja a solução.

Talvez a nossa cultura, execrada por parte de uma elite de olhos em Miami, seja este novo paradigma que o Brasil represente. A imagem de um presidente que veio das classes sociais mais baixas, que é citado com freqüência na imprensa internacional agrada muitos e desagrada poucos (principalmente aqueles que se seguram com unhas e dentes num passado que só dava espaço para pequena parte da população) é agradável não só ao terceiro mundo.

Poderíamos dizer que estamos na presença do que em genética se chama o “vigor do híbrido”, ou seja, quando cruzamos várias linhagens de plantas ou animais conseguimos um ser mais forte e sem as doenças características de cada linhagem. A população brasileira por ser o resultado da união de diversos povos e culturas está impregnada de diversidade e com isto não há espaço para a intolerância e discriminação, talvez seja isto que todos estejam esperando de nós.
Gostei da frase: A liderança de um país se dá não somente por fatores econômicos e militares, se dá também pela capacidade deste de ganhar os corações e mentes dos outros países,...".
obrigado,
abs
O novo papel internacional do Brasil nas relações externas,pode ser analisado pelo pedido do Pres.da Síria acaba de fazer à nossa chancelaria,no sentido do Pres.brasileiro intervir no processo em questão,as relações entre os árabes e os palestinos e seus apoiadores e Israel e sua política "arraza terreno".
Só um país que não tem confrontos com seus vizinhos e não participar de nenhuma guerra de agressão é que tem qualidades morais para servir como mediador.

Também é importante destacar que estamos num país em que comunidades dos mais diversos matizes coesistem pacificamente.

É importante que nossos orgãos de segurança tenham atenção para de não haja "ataques terroristas" em nosso território, coisa que seria extremamente interessante para quem não quer a paz e não quer o Brasili como interloctor. Isto é sério, não é uma frase de efeito.
Caro Rogério,de onde você "tirou"esta possibilidade(remota)de que grupos interessados em intrigar o Brasil com outras nações ?
Mesmo sendo uma "frase de efeito"certas elocrubações não são benvindas,pois podem despertar sentimentos dormentes,numa sociedade tão pluralista e composta de imigrantes como a nossa.
Não seriam exatamente nem necessariamente os orgãos de segurança,que deveriam evitar o surgientos destas suas ilações,e sim a continuidade deste processo de distenção,que o Itamarati e o Presidente Lula estão cultuando,que é exatamente ser um ator no processo de discussão,para conseguir uma relaçã de paze respeito entre os países da ONU.
Tenho a certeza,de que após estas atitudes Estadistas do Lula,mesmo ao final do seu governo,ele continuará sendo um consultor internacional nos assuntos diplomáticos e certamente exercerá a antiga função que o Sec. de Estado Norte-americano desempenhava,e que "graças"aos falcões de Washington,perdeu sua credibilidad,como bem comprova,a gestão da Hilary Clinton,desastrosas !

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