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A esquerda mingua enquanto a direita marca a agenda na Europa

A esquerda mingua enquanto a direita marca a agenda na Europa


Partidos progressistas retrocedem em quase toda a UE. A globalização desgasta as receitas tradicionais e as bases da social-democracia

Fonte: El Pais

Pere Rusiñol e Walter Oppenheimer
Em Madri e Londres

Na península Ibérica ela resiste, embora cada vez mais desbotada. Mas no resto da Europa a esquerda diminui em uma velocidade inédita: a direita ganha eleição após eleição - dirige 19 dos 27 governos da UE -, impregna as políticas supostamente de esquerda e se impõe na agenda da UE - diretriz de imigração, extensão da jornada de trabalho, etc - quase sem encontrar resistência. O que acontece com a esquerda européia? Onde está?

"A esquerda não soube enfrentar o relativo declínio do Estado em comparação com a globalização", explica o historiador britânico Eric Hobsbawm, de 91 anos. "O Estado nacional, que foi o marco essencial para muitos dos programas de esquerda, não está mais em posição de gerar as reformas que a esquerda reformista estava disposta a implementar, ou de transformar-se totalmente em uma economia socialista."

Na sua opinião, "a esquerda foi substituída, talvez temporariamente, por grupos de pressão especiais a favor de assuntos às vezes identificados com a esquerda no passado, que não são completamente idênticos ao programa geral da esquerda, como a emancipação das mulheres, o liberalismo cultural ou o meio ambiente". É parecida a análise de Nicolás Sartorius, ex-dirigente da Izquierda Unida (IU, coalizão de eco-socialistas e comunistas) e do primeiro sindicato da Espanha, Comissões Operárias (CCOO), hoje vice-presidente da Fundação Alternativas. "As políticas social-democratas podiam funcionar no âmbito do Estado-nação. Mas a globalização não só começou a erodir o Estado-nação, como tudo o que se havia construído sobre ele. Por isso é tão necessário construir a Europa e um discurso global", afirma.

Em nenhum lugar como na Europa se nota com maior nitidez a decadência da esquerda clássica. Todos os seus feudos, até os que foram exemplos para progressistas do mundo inteiro, estão arrasados: na França os socialistas não ganham eleições presidenciais desde 1988 e o partido se transformou em um reino de parcialidade. Na Alemanha, o outrora todo-poderoso Partido Social-Democrata se dilui em um governo de coalizão dirigido pela democrata-cristã Angela Merkel, perde muitos militantes e no domingo liquidou a etapa chefiada por Kurt Beck nomeando candidato a chanceler Frank-Walter Steinmeier, com a esperança de pelo menos salvar os móveis. Na Itália, a esquerda foi incapaz de deter um personagem como Silvio Berlusconi, que recuperou o poder tirando a poeira de pulsões fascistas, e pela primeira vez não há no Parlamento nenhum deputado comunista: o declive eleitoral da esquerda não afeta só o ramo majoritário.

Nem mesmo os países escandinavos são o que foram. O famoso modelo sueco nunca esteve tão ameaçado: os social-democratas não dirigem mais o governo sueco nem o finlandês. E as pesquisas lhe são contrárias na Noruega, onde dirige uma grande coalizão heterogênea.

Trata-se de uma situação conjuntural ou existe esse mar de fundo mais profundo de que fala Hobsbawm? A maioria dos dirigentes da esquerda institucional opta pela primeira e a vê como um fenômeno passageiro. "Creio que se trata de um efeito de pêndulo; em 2000 a situação era exatamente a oposta e a esquerda predominava claramente", afirma Enrique Barón, chefe dos socialistas espanhóis no Parlamento Europeu. Muito mais contundente é Javier Caldera, que transferiu o otimismo irredutível de José Luis Rodríguez Zapatero à frente da nova fundação Ideas do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol): "A situação atual é conseqüência da última década, mas agora tudo está mudando: estamos em um momento de renascimento da esquerda e dos valores progressistas, como demonstra o ímpeto de Obama nos EUA e sua recepção na Europa". E acrescenta: "O que está em retrocesso é o pensamento neoconservador".

Nas antípodas se situa o historiador Josep Fontana, professor emérito da Universidade Pompeu Fabra em Barcelona. Não é que a esquerda esteja em declínio, ele diz, mas que simplesmente se extinguiu. "Os velhos partidos social-democratas se transformaram só em democratas: partidos moderados de centro que se preocupam com os direitos individuais, mas não com os sociais. E à esquerda disso não ficou simplesmente nada", salienta.

Sua análise combina muito bem, por exemplo, com a situação vivida no Reino Unido sob os trabalhistas: para voltar ao poder, e sobretudo para se manter nele, Tony Blair e Gordon Brown arrastaram o partido para o centro e se apoderaram de áreas que tinham sido dominadas pelo pensamento de direita. Mas, desgastados depois de cerca de três legislaturas governando e sem o carisma do Blair dos anos 1990, agora se vêem incapazes de oferecer algo que os diferencie dos conservadores. Fontana considera que a situação atual tem claros paralelos com o século 19: "A política do século 19 gira ao redor de dois pólos - liberal e conservador - e o aparecimento do PSOE é testemunhal. Hoje o esquema é parecido porque a velha esquerda se deslocou completamente para o centro. Não há nada que indique uma alternativa, e, portanto o binômio também pode durar muito. Mas na medida em que os problemas se tornem evidentes vai acabar surgindo algo para preencher o vazio".

A hegemonia da direita não se expressa só na esmagadora maioria de países que ela governa na UE. Vai além: nos raros países onde a esquerda governa, promovem-se muitas vezes políticas indiferenciáveis das dos Executivos de direita: enrijecimento das políticas migratórias, redução das liberdades civis em nome da política antiterrorista, liberalização a todo custo do mercado de trabalho, subordinação aos EUA. O governo trabalhista britânico foi a vanguarda dessa agenda na UE, onde sempre encontrou a cumplicidade da esquerda dos países do Leste, que depois de décadas de totalitarismo parecem tê-las incorporado em seu DNA.

O próprio Executivo de José Luis Rodríguez Zapatero, o queridinho da esquerda européia na última legislatura, parece apontar na mesma direção. O símbolo da virada é o Departamento de Trabalho: Caldera, responsável pela regularização dos imigrantes e pelo sotaque social do governo, foi substituído por Celestino Corbacho, defensor da "mão dura" e do fechamento de fronteiras. Apesar de o governo negar qualquer virada, os socialistas espanhóis a deixaram patente ao votar no Parlamento Europeu a diretriz de imigração, que autoriza a retenção dos sem-papéis durante 18 meses: 16 dos 19 socialistas espanhóis se afastaram do grupo e a apoiaram.

"Não fomos os únicos socialistas que votamos a favor. Muitos alemães também o fizeram: os que temos responsabilidades de governo", salienta Barón, encarregado de fechar o voto. Barón se indigna diante da leitura que foi feita: "Houve muita demagogia: essa diretriz está longe de ser perfeita, mas abre caminho para impor limites em lugares onde não havia", explica. E acrescenta: "A diretriz melhora o marco atual, apesar de o contexto ser de maioria conservadora".

Barón é um exemplo dos que acreditam que o problema da esquerda é exatamente que evita os assuntos incômodos e, portanto deixa o caminho livre para a direita. "É preciso enfrentar a realidade", afirma. "Estamos em um momento de mudança e muita gente tem dificuldade de acesso aos serviços públicos. Bastiões da esquerda votam à direita. Quando não se enfrentam as situações, é mais fácil buscar bodes-expiatórios. Nosso objetivo é enfrentá-la para evitar os guetos, ajudar na integração e conseguir que haja uma política de imigração européia."

O pragmatismo diante da cerração ideológica como melhor receita para que a esquerda recupere o poder encontrou sua expressão mais contundente no dirigente francês Manuel Valls. Ele acaba de publicar um livro intitulado "Para Acabar com o Velho Socialismo e Ser Finalmente de Esquerda". Ele defende uma tábula rasa. Um objetivo e uma linguagem que lembram o big bang lançado em sua época por Michel Rocard e que acabou em nada.

O problema é que as fórmulas para o sucesso estão longe de ser científicas e muitas vezes são antagônicas. A de Caldera, por exemplo, alheio ao rumo apontado pelo governo do PSOE, é reforçar a identidade de esquerda: "Se a esquerda sai de seu trilho e vai para os valores conservadores, está perdida", salienta. Em alguns casos, sobretudo o dos movimentos sociais, a decadência da esquerda se explica inclusive como conseqüência desse pragmatismo. "Os partidos chamados de esquerda aceitaram todos os preconceitos dos conservadores. Seu grande problema é que perderam credibilidade. Pedem o voto de esquerda, mas depois promovem políticas de direita em nome do pragmatismo", acusa Esther Vivas, ativista da Rede de Consumo Solidário e do Fórum Social, entre outros.

Os novos movimentos sociais nos quais Vivas milita demonstraram às vezes certa força, como nas marchas contra a guerra do Iraque, mas sua influência está longe de igualar a que tiveram os sindicatos, outra base da tradição da esquerda que se encontra em crise. Como é possível que a UE planeje um dos maiores ataques ao seu modelo social com a semana de trabalho de 60 horas - que às vezes poderia chegar a 78 - e os sindicatos ainda não tenham saído às ruas?

"Estamos muito preocupados com esse projeto de diretrizes, mas não é fácil mobilizar; antes é preciso se explicar muito bem", explica Catelene Passchier, secretária da Confederação Européia dos Sindicatos (CES). "A grande questão é: podemos parar a diretriz? Para isso é básico trabalhar com o Parlamento, o único que pode pará-la, e estamos fazendo isso. Somos otimistas", acrescenta. Em seu momento, quando a Eurocâmara voltar a debatê-lo, o CES também projeta manifestações. "Precisamos de tempo para prepará-las porque hoje é mais difícil organizá-las, mas serão um sucesso", conclui.

O mundo mudou e seus novos contornos ainda são difusos demais, mas para alguns acadêmicos a crise não é só da esquerda. É o que crê Rodney Barrer, professor da London School of Economics: "A esquerda está em crise pela mesma razão que a direita está em crise: durante a maior parte do século 20 havia um mapa ideológico claro, com posições ideológicas coerentes esquerda-direita. Se em 1950 eu lhe dissesse que era a favor de nacionalizar indústrias você saberia o que eu pensava sobre armamento nuclear ou as relações Igreja-Estado. E se lhe dissesse que era a favor de mais disciplina na família, saberia o que pensava sobre o imposto de transmissões patrimoniais ou os sindicatos. Hoje não há mais posições ideológicas claras, e os partidos as procuram continuamente. Muitas vezes só no nível da imagem".

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