Quem tem por hábito ler jornais antigos percebe que, de ordinário, tudo é a mesma coisa. A vida é a mesma pois mesmo é o homem; só se lhe muda a casca.
Na arte ou na ciência, na política ou na literatura, nos ofícios ou nos lazeres, poucos acréscimos se vê, senão uma abundância de superfluidades que lutam para esconder as mesmices claramente mostradas pela imprensa que não se cansa. E ai de nós se um dia ela se cansar! Nesse caso nem o mesmo teremos pois a vida parece que pouco nos dá de novo.
Nas denúncias, típicas em anos eleitorais e pré-eleitorais (ou seja, todos), mudam-se apenas as datas e os atores (e as vezes nem esses). A natureza dos fatos é sempre a mesma, testemunhando a circularidade da Historia que insiste em nos contar o que já sabemos...
Tanta repetição ao longo do tempo torna intuitiva a razoabilidade de se permitir a construção de previsões com considerável probabilidade de acerto. Eu, por exemplo, num exercício gratuito e irresponsável de futurologia, poderia arriscar aqui que nesse novo ano eleitoral - no mercado de usados - haverá uma série de denúncias contra políticos acerca de fatos “em bom estado” ou “semi-novos” que se encontravam em "stand by", aguardando, como uma jogada de xadrez, uma melhor oportunidade para serem revelados à imprensa. Nos negócios, haverá prosperidade em alguns setores e declínio em outros. Mortes de personalidades e nascimentos de filhos de personalidades. Corrupções nos governos, tributos novos ou novos meios de se tirar dinheiro do povo...
Na Política registrou-se, registra-se e registrará amiúde, homens que pousam melhor nas biografias encomendadas e nas memórias dos familiares e amigos do que na verdade. Mas que importa isso se nem bem sabemos o que é verdade e quando o sabemos os ventos a levam como folhas de outono?
Vê-se, pois, que se a vida se repete com tamanha precisão ela está querendo nos dizer algo. Talvez que ainda não melhoramos o suficiente para mudar o atual estado de coisas (eu gostaria de encontrar algo melhor para explicar esse fenômeno).
A literatura até hoje, como ainda o fará muito, nos remeterá a Platão, Aristóteles, Rousseau, Shakespeare, Pessoa, Kant, Maquiavel, etc. Todos pregando no deserto verdades sonhadas ou sonhos ditos como verdades, far-nos-á, como tem sido sempre, concluir, como Almeida Garret, que "O antigo que dura ainda, é porque tem achado na experiência a confirmação que o moderno não tem" ou ainda que "A sociedade é materialista; e a literatura, que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista!".
Em suma, vivemos o que não somos e nesse não-ser constante o que é vai passando...como folhas de outono.
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