Quando eu era criança pequena lá na Corujinha, costumava ir junto com meus pais às tradicionais cantorias, travadas em uma sala alumiada à lamparina, por dois "violeiros dos bons", cabras da peste, que manjavam desde a mitologia grega, ao cangaço nordestino e a religiosidade envolvendo Padre Cícero e Frei Damião, além dos “causos” do Rei do Baião.
Lá pelo meio da cantoria, depois de martelos agalopados, canções e pelejas de todos os tipos, chegava o momento romântico dedicado ao improviso, baseado em temas apresentados pela platéia.
A pessoa depositava um tema escrito num pedaço de papel na bandeja da "coleta", juntamente com alguns trocados e os poetas faziam vários versos cantados a respeito e terminando cada um com a citação do próprio tema.
Os temas apresentados eram os mais variados possíveis: maridos e esposas, namorados e namoradas, filhos e pais, aproveitavam a oportunidade para trocarem homenagens as mais belas, era puro amor.
Acontece que, no meio daquele festival de gentilezas, era comum aparecer uma figura que destoava da maioria e mandava um tema pelo avesso, geralmente padronizado, assim: "o bem que eu desejo a “fulano” é cadeia, hospital e cemitério”. Brincadeira? Era a pura verdade, em muitas cantorias aparecia um "iluminado" para destilar o seu veneno, em meio a pessoas pouco letradas, educadas e respeitosas, que ficavam se olhando pelo “canto do olho”, diante de sentimento tão mesquinho.
Pior que esse gesto pequeno não é coisa do passado e, na prática, tem se perpetuado através do ódio, que é o único ingrediente capaz de produzir tempero tão picante e amargo no comportamento humano.
O maior exemplo disso é o sentimento que uma minoria de brasileiros, que mesmo assim envolve muita gente, nutre em relação ao Presidente Lula. Primeiro vibraram com o aparecimento da doença, inclusive achando um absurdo que ele fosse tratado no Sírio, o “hospital” das celebridades, esquecendo que um ex-presidente não deixa de ser uma, mesmo na condição de pau-de-arara.
Em segundo lugar, muita gente vangloriava-se de que Lula ia morrer daquela e terminar num “cemitério” rapidinho e assim pagaria seus pecados em um tribunal onde a influência política, midiática ou qualquer outra, não tem a menor importância, que é aquele onde predomina a verdadeira justiça, a divina.
E agora, é lógico que não poderia o tema ruim das cantorias ficar incompleto, e a galera “indignada” com Lula, composta de figuras para todos os gostos, bolsos, canudos e credos, deseja mais do que nunca vê-lo na “cadeia”, fechando o firo temático lá do pé de serra, contaminados por uma unanimidade que é muito ódio no coração.
Afinal, o Presidente Lula é “próximo”, ou a exceção, para não quebrar a regra? Será que com Lula pode? Perguntem para Deus...
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