Daniel Rittner, de Buenos Aires
08/02/2010
No segundo andar de uma casa sobriamente decorada de Palermo Chico, uma das zonas mais nobres de Buenos Aires, o ex-czar da economia argentina Domingo Cavallo recebe a reportagem com uma bateria de perguntas sobre o Brasil: "De quanto será o superávit comercial neste ano? A conta corrente terá déficit? Você acha que o Serra [José Serra, governador de São Paulo] vencerá as eleições?". Aos 63 anos, Cavallo dá poucas entrevistas. Chegou a manter um silêncio midiático de quatro anos. Ainda prefere a discrição, mas se entusiasma ao criticar os governos da presidente Cristina Kirchner e do marido dela, Néstor Kirchner, e ao elogiar a "estabilidade institucional do Brasil, que já dura 15 anos".
Ex-presidente do Banco Central, duas vezes ministro da Economia, pai da Lei de Conversibilidade (que estabelecia a paridade cambial de um por um entre o dólar e o peso), autor do "corralito", provavelmente a figura mais polêmica da histórica recente da Argentina, Cavallo diz que o país está à beira de uma "disparada da inflação". Embora o instituto oficial de estatísticas tenha apontado alta de 7,7%, consultorias privadas com medições independentes registraram variação superior a 15% em 2009 e começaram a rever suas projeções para mais de 20% em 2010. "Que não haja dúvida: sairá do BC o financiamento para a expansão do gasto público e para a transferência de recursos às províncias nos próximos dois anos", afirma ele. "Assim como agora o BC deverá liberar o dinheiro das reservas, daqui a alguns meses estará imprimindo mais dinheiro para financiar o déficit."
Admirado com o desempenho da economia brasileira, Cavallo atribui o sentimento de prosperidade ao combate à inflação e ao respeito às regras do jogo. Sugere maior controle com o aumento do gasto público, mas ironiza quem vê a formação de uma bolha no Brasil. Não vê "nenhum drama" no dólar abaixo de R$ 2 e aconselha o BC a descartar uma redução da taxa Selic com o objetivo de reduzir o "carry trade" (operação na qual o investidor toma empréstimo em moedas de países com juros baixos e aplica os recursos em ativos mais rentáveis, como o real). Ao despedir-se, após uma hora e meia de conversa com o Valor, faz um pedido: "Só tome cuidado com essa questão do real. Senão, vão dizer que o mesmo que defendia o peso a um dólar agora defende o real sobrevalorizado".
Valor: Com a exceção de 2009, a Argentina cresceu a taxas "chinesas" nos últimos anos. Por que há um sentimento de frustração aqui e de prosperidade no Brasil?
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