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Coutinho: Pessimismo empresarial trava retomada

REDE D: Pessimismo empresarial trava retomada, diz presidente do BNDES

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, comemora o fato de não estar mais "solitário" dentro do governo na defesa de uma taxa cambial mais competitiva e insinua que o real poderia estar ainda mais desvalorizado.

Declara-se motivado com o fato de que o desafio de "salvar, revigorar, reindustrializar cadeias que perdemos" ter se tornado consenso no governo. "Fui solitário neste processo", disse em entrevista à Folha.

Ele atribui boa parte da estagnação da indústria ao fato de a moeda brasileira ter passado por "longos períodos" de valorização.

Cita especificamente os "últimos dois anos", período no qual o dólar chegou a ameaçar cair abaixo de R$ 1,50, quando diz ter vivido um "período de grande angústia". Conselheiro da presidente Dilma, Coutinho diz que o empresariado brasileiro é ciclotímico e está numa posição "muito mais pessimista" do que o potencial brasileiro justifica no momento.

Para ele, esse é um dos fatores para a demora na recuperação do crescimento. O empresariado "travou um pouco o investimento".

Ele evita fazer previsões sobre o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), mas diz que indústria começa a dar sinais de recuperação.

Classificando a era dos juros altos como uma "página virada" e nosso "último ato" a recuperação da "solidez cambial", Luciano Coutinho diz que o país tem, agora, dois desafios principais: a redução da carga tributária e a melhoria da competitividade e da produtividade.

Coutinho reconhece, porém, que a redução da carga tributária, "complexa e imperfeita", é difícil de ser implementada, por envolver disputas federativas.

No curto prazo, o governo vai atacar os "custos sistêmicos" do país, entre eles o de energia, afirma.

Responsável pelas ações do governo no financiamento de grandes projetos da economia, o presidente do BNDES aponta o setor de bens de capital como o que mais "sofreu" na indústria brasileira e anuncia que vai adotar medidas para revigorá-lo. Ressalva, porém, que serão estímulos progressivos. "É fácil, muito mais fácil destruir do que construir."

Rebatendo as críticas de que o governo Dilma está se limitando a medidas pontuais para combater a crise, Coutinho diz que são elas que permitem uma "transição" para a indústria "sobreviver" durante o período de turbulências. Reconhece, porém, que, apesar de serem "necessárias", não são "suficientes".

Segundo ele, o que o governo tem feito é dar "oxigênio" para "manter vivo" o setor de bens de capital durante o desaquecimento da economia brasileira. Diz, porém, que apesar de "um ou outro pequenininho" estar na UTI, não há problemas mais graves. "Problema eu tive em 2008 para 2009, aqui foi problema", quando a economia nacional entrou em recessão.

 

Folha - No momento em que o BNDES completa 60 anos, a indústria brasileira passa por um momento delicado, num quadro em que nossa economia não dá sinais de recuperação. Qual o papel do banco hoje?

LUCIANO COUTINHO - Não sei se é um momento delicado, acho que é rico em desafios positivos para o país. Tivemos mudanças qualitativas importantes na combinação câmbio e juros, uma redução real da taxa de juros, considerada alta demais diante dos bons fundamentos macroeconômicos.
Ficamos com uma herança de juros muito altos, mas isso está sendo corrigido, tirando proveito de uma janela de oportunidade que é a crise internacional.
Estamos caminhando firmemente para ter um patamar de juros condizente com nossa condição macroeconômica.

O que é isso?

O Brasil é um dos poucos países que está reduzindo sua dívida líquida sobre o PIB, tem um superávit primário, caminhando para um déficit nominal muito baixinho. Um déficit nominal de 1%.
Todos os países desenvolvidos estão com deficit de 6%, 7%, 8% do PIB. Os europeus vão suar sangue para chegar a 5%, 6%.
Temos uma condição macroeconômica privilegiada, e isso vai se refletir numa taxa de juros mais baixa. O que abre caminho para uma grande mudança qualitativa em termos de desenvolvimento do sistema financeiro privado do país e do mercado de capitais.
Então, nós precisamos ter em perspectiva que temos, e repito sempre isso, uma fronteira de investimentos de alta rentabilidade, que será um fator de propulsão do crescimento brasileiro.
A combinação dessas duas grandes condições é que nos permitirá crescer, aumentar os investimentos em relação ao PIB, e crescer a taxas mais altas do que das taxas recentes. E essas taxas poderão ser tanto mais altas quanto mais capazes sejamos de enfrentar os dois grandes desafios que restam, que são estruturais.
Quais? O desafio da competitividade e da produtividade. E o da estrutura tributária. São os dois desafios de longo prazo.

Por que ainda não enfrentamos de frente esses dois desafios? A taxa de câmbio passou dos R$ 2, os juros estão mais baixos, mas a confiança do empresário segue também muito baixa.

É verdade. Estamos falando de uma circunstância de curto prazo. Precisamos lembrar aqui duas coisas. Primeiro, o empresariado é muito ciclotímico. O mercado é ciclotímico em geral.
Ele vai para a euforia quando, em 2010, tínhamos um estado de euforia que ia além da realidade. Quando as coisas, especialmente com a crise internacional, são mais difíceis, o empresariado também cai numa posição muitas vezes mais pessimista do que o potencial brasileiro.

Ele está mais pessimista do que deveria estar?

Acho que sim. Está muito afetado pela conjuntura de curto prazo de um lado. De outro, aí é uma questão específica da indústria, tivemos muitos períodos de apreciação cambial.
Primeiro, foi o Plano Real, um período de cinco anos, até que ele se desfez da forma como foi concebido e foi para o sistema flutuante. Aí tivemos um período relativamente curto de câmbio mais favorável. Depois, veio um outro período, também longo, de contínua apreciação cambial, que vem de 2004 até a crise de 2008.
Houve uma breve interrupção e o sucesso brasileiro em vencer a crise levou de novo a um ciclo de apreciação. Esse mais recente.

Até 2010 e 2011.

Esse mais recente, até o ano passado, quando a política de redução de juros e a intervenção regulatória, de regulação do mercado cambial, via impostos, via IOF, mitigou a situação.
E a crise internacional também mudou de mão. Aí você conseguiu escapar de uma trajetória de apreciação cambial.
Agora, ao longo desses períodos, a indústria veio perdendo substância. Foi perdendo lentamente mercado no exterior, porque vários concorrentes se aparelharam, tomaram market share.
O México capturou nosso market share de manufaturados no mercado americano. Houve a tremenda expansão chinesa para todos os mercados de manufaturados. Esse movimento começou a induzir a um esvaziamento das nossas cadeias produtivas, com ampliação da importação de partes, de peças.
Esse processo tornou-se mais claramente percebido por todos nos últimos dois anos.
Eu pessoalmente vivi um período de grande angústia com isso. Em muitos momentos eu fui solitário neste processo.

Foi um momento de críticas à política cambial do governo por parte do empresariado.

Eu fui solitário neste processo e acho que, depois, hoje, isso virou.
Aquele sentimento meu, que era solitário, virou um sentimento de todos. O que me deixa muito feliz, porque finalmente acho que sociedade brasileira e o empresariado brasileiro começam a compreender porque é tão relevante ter uma indústria forte e competitiva.
Porque a indústria é essencial hoje em nossa sociedade, não tanto para gerar empregos, porque a indústria cada vez mais eficiente vai para padrões de automação mais profundos, mas porque, nos serviços pré e pós-manufatura, ela cria empregos de alta qualificação.
Na pré-manufatura são serviços de engenharia, design, informatização, sistemas.
Depois, vêm os serviços pós, desde os de assistência até os de marketing, que só se cria quando você tem uma indústria.

O que o país ainda está devendo, ainda não está sendo resolvido, ficou para trás?

Ficou por conta de um conjunto de fatores. O câmbio apreciado.

Quais são os fatores?

Primeiro, a subida de uma série de custos sistêmicos, como o de energia na margem. Combinada com o aumento de carga tributária sobre os insumos em geral e sobre a energia também.
O Brasil passou de uma economia onde os custos sistêmicos eram competitivos, nos anos 70 e parte dos anos 80, para uma economia em que eles se tornaram altos.
De outro lado, tivemos um saudável processo, mais recente, do governo do presidente Lula, de aumento da taxa de crescimento do país.
Esse processo, embora aquém do que todos gostaríamos que fosse, combinado com a transição demográfica brasileira, que fez reduzir o crescimento da população economicamente ativa, produziu um aumento muito saudável do emprego formal.
Num contexto em que a economia cresce e a taxa de desemprego cai, os salários reais sobem. O que é saudável, porque melhora a distribuição de renda no país.

O que ajuda a segurar a popularidade da presidente Dilma.

Por mérito do governo. Mas não quero discutir política. O fato é que isso afeta o custo da competitividade, há uma pressão sobre os custos sistêmicos e um aumento de custo de salário unitário.
Combinados com a apreciação da taxa de câmbio, provocaram uma pinça de esmagamento da rentabilidade da indústria, da taxa de retorno na atividade industrial, reduzindo sua competitividade.
Temos também um problema de produtividade, sim, especialmente do trabalho. O Brasil precisa subir rapidamente a produtividade do trabalho, ter uma agenda de reforço da automação para preservar a capacidade competitiva da indústria.
Temos um tremendo desafio, que é salvar, revigorar, reindustrializar cadeias que perdemos, de tal maneira que a indústria brasileira volte a ter um papel relevante na dinamização da economia brasileira. Eu me sinto muito motivado no momento em que a compreensão desse desafio começa a se tornar consensual.

Dentro do governo?

Na sociedade. Que é mais importante, porque agora há uma compreensão disso.
Por que estou motivado? Porque temos até uma cobrança, que até certo ponto é injusta, de que o governo só está atuando num plano tático, de medidas, quando na verdade a grande angústia é a compreensão de que os problemas são mais estruturais e precisamos de estratégias de longo prazo.
O que posso assegurar é que o governo está plenamente consciente desses grandes desafios.
Eu não mencionei, quando falei dos custos, um outro fator, que é a subida da carga tributária, que não é um fator de um governo, vem desde os anos 70.
À medida que foi subindo, tornou-se tecnicamente mais cumulativa, complexa e imperfeita. Foi ficando qualitativamente pior, não só maior como pior. O governo tem plena consciência de todos esses problemas e desafios estruturais, quais sejam, de ganhar competitividade, produtividade, reduzir a carga tributária, os custos sistêmicos, inclusive os de energia. Porém, a complexidade desses problemas é muito maior do que o manejo diário. Obviamente é uma questão complexa.

O sr. vê possibilidades de a reforma tributária avançar no curto prazo, já está em estudo no governo?

Há uma reflexão que está sendo feita a respeito de como começar. Não quero adiantar, mas há uma reflexão permanente sobre o melhor caminho.
Agora, um pouco para responder à percepção de que nada está sendo feito, o que não é verdade, chamo a atenção primeiro para o fato de um dos grandes desafios brasileiros, que era o primeiro que o empresariado sempre colocava, os juros muito altos, esta é uma página que está sendo virada. Vamos fazer pouco disso? Não.
Segundo, a questão da chamada guerra dos portos. Uma batalha difícil foi enfrentada, outra página que está sendo virada, e que é fundamental para a questão da indústria. E a melhoria relativa da taxa de câmbio real.

Relativa, ainda?

Sim.

Ela deveria ser mais alta ainda?

Acho que a gente deve continuar com o sistema de câmbio flutuante, mas... Eu não quero dar um número, mas eu acho...

Poderia ser maior e seria melhor?

Enfim, se fosse, melhor. Isso é uma coisa que nós temos que pensar em faixa, e não em números.
Seguinte, como os problemas estruturais são difíceis, gera uma ansiedade.
Temos de transformar essa ansiedade em uma consciência e uma criação de condições para enfrentar as questões estruturais. Porque as questões estruturais não podem ser enfrentadas só por governos.
São questões que demandam uma ampla consciência da sociedade, do Congresso Nacional, para poder enfrentar reformas mais profundas.

O sr. diria que as duas mudanças essenciais são o custo da energia e a reforma tributária?

Não só o custo da energia, mas o de vários insumos importantes, incluindo energia. A questão tributária e a da produtividade do trabalho.

E o desenvolvimento do mercado de capitais?

O desenvolvimento de mercado de capitais. O BNDES tem um papel importante em, primeiro, cumprir o papel clássico de suprir créditos, de longo prazo enquanto o mercado não se estrutura. Segundo, o BNDES tem de se preparar para esses novos grandes desafios do futuro.

Quando o sr. pensa na cadeia produtiva da indústria, qual foi a etapa que mais sofreu com essa crise recente, houve em algum setor um problema grave de desindustrialização?

Se olharmos com visão de prazo mais longo, quem sofreu mais? Foram os setores de bens de capital. O Brasil chegou a ter, no início dos anos 80, uma indústria de bens de capital muito mais importante. Ela veio perdendo substância. Perdemos empresas de setores importantes na área de equipamentos de telecomunicações, de eletrônica em geral, um pouco de indústria de informática, na área de farmacêutico e química. Aí, sim, tivemos um renascimento mais recente por causa do mercado de genéricos, mas perdemos muita substância. E permitimos um esvaziamento de valor agregado dentro da cadeia automotiva, que era muito integrada e começou a ficar uma indústria só de montagem final. Num período mais recente, algumas destas tendências se agravaram.
Um dos fatores que vamos preparar, num contexto de recuperação da nossa capacidade e da nossa densidade industrial, é um processo de revisão da política do BNDES da Finame, do financiamento de máquinas e equipamentos. Queremos induzir o fabricante a ganhar mais capacidade de agregar valor no país. Sabemos que, para reverter esse processo, no que toca a equipamentos e bens de capital, teremos de criar estímulos e fazer isso de uma maneira progressiva. É fácil, muito mais fácil destruir do que construir.

Leva quanto tempo?

Não sei exatamente, depende muito do setor. Em algum setor pode levar cinco, em outro, dois.

Por que o setor de bens de capital foi o que mais sofreu na indústria?

Temos uma agenda muito difícil de reforço da estrutura de capital das empresas. Precisamos recuperar primeiro o oxigênio. Esse período de desaquecimento da economia, num período mais recente, inspira que nós nos preocupemos em manter vivo o setor para que ele possa retomar o oxigênio para enfrentar o desafio. Temos uma agenda, de médio e longo prazos, de ganhar capacidade. Na agenda de curtíssimo prazo temos que assegurar a capacidade de sobrevivência da indústria. Daí porque o governo tomou uma série de medidas, que falaram que eram "medidas pontuais, determinou compras de equipamentos". O que quero dizer é que as medidas táticas têm seu valor e seu lugar, sua necessidade, não podemos descartá-las, essas medidas táticas é que permitem uma transição para sobreviver. Elas são necessárias, o que não são é suficientes.

A principal crítica não é nem sobre as medidas de curto prazo, mas a falta das de longo prazo.

Mas elas estão sendo gestadas.

Na área tributária?

Não, a área tributária é a mais difícil. Porque qualquer mexida em sistema tributário tem impacto sobre a distribuição entre esferas de governo e regiões do país. Mudanças tributárias primeiro têm um certo grau de risco. Precisaríamos estar num grau de solidez macroeconômica tal, estamos chegando perto disso, porque qualquer mudança no sistema tributário pode produzir perdas maiores do que as previstas. Um sistema mais perfeito tem de combinar uma redução paulatina da carga tributária, porque não é realista imaginar uma redução radical da carga tributária, como muitos querem. Esse é o desafio mais difícil, precisa ser amadurecido, não é apenas uma coisa de um governo, são propostas que precisam ser amplamente costuradas. Começa na sociedade e com o sistema político, porque caso contrário a chance de sucesso é pequena.

Pensando nos gargalos industriais que o sr. citou, que são a questão tributária, a da energia, eficiência, da automação, a questão de desenvolvimento de um mercado de capitais de financiamento de longo prazo. Qual deles tem mais chance de progresso?

O que tem mais chance de andar mais rápido, com a redução da taxa de juros, é o desenvolvimento financeiro, porque o nosso é sofisticado e temos estoque de poupança preexistente, em grande parte ancorado em papéis públicos que podem migrar para papéis privados. Esta é uma reforma muito relevante e pode acontecer. O outro, que está em processo de reflexão, tem a ver com os custos de energia, mas eu não posso adiantar, mas há uma reflexão a respeito e pode resultar em algum avanço importante.

No caso do custo de energia, a presidente quer uma decisão até o final do ano, é isso?

É, existe uma reflexão em nível de governo deste tema. O tema do aumento da produtividade e da competitividade é de médio e de longo prazo, mas que precisa começar e temos de impulsioná-lo. Acredito que aqui não se constrói da noite para o dia, mas temos de começar a caminhar. Temos condições de avançar em muitas cadeias importantes. Na área de óleo e gás, continuar avançando no agronegócio e na sua base industrial. Temos capacidade de revigorar a nossa indústria automotiva e agregar valor dentro dela.
Temos condição de sustentar e avançar na capacidade competitiva de vários sistemas, nos quais o Brasil ainda tem competitividade, mas tem de preservar. Falo de celulose e papel, da siderurgia. Temos que retomar nossa reflexão a respeito do nosso complexo intensivo de informação, cadeia de fornecimento em telecomunicações, em eletrônico de consumo, nós estamos trabalhando intensamente para trazer a indústria de display, que é fundamental.
Temos condições de avançar na indústria farmacêutica, que tem hoje uma nova geração de produtos de base biotecnológica. Temos que capturar essa oportunidade. Temos que avançar em toda a indústria tanto de equipamento como de consumo para construção. É uma cadeia poderosa. Temos uma oportunidade nova, com a Vale, com a obtenção do licenciamento do projeto Serra Sul, no Pará, vai agregar mais R$ 40 bi de investimentos nos próximos anos, um outro Carajás.
Então, o Brasil tem muita oportunidade e precisamos enxergá-las. Precisamos voltar a pensar a longo prazo. Se tivesse de sintetizar tudo o que estou falando, é o seguinte: o Brasil desorganizou seu modelo de crescimento, nos anos 70, porque tinha um calcanhar de aquiles, que dependia na margem intensamente de poupança externa. Esse modelo foi desarmado pela crise da dívida no início dos anos 80, jogou o ônus da dívida em cima do setor público, desorganizou as finanças públicas, deu quase hiperinflação, tivemos de suar sangue para vencer e fizemos um longo caminho de recuperar a saúde fiscal do Estado, o último ato foi recuperar solidez cambial. E, milagrosamente, conseguimos recuperar um volume de reservas internacionais, que é um colchão superimportante.

Por que o Brasil está demorando tanto a se recuperar neste ano?

Tem uma combinação de vários fatores pontuais e outros conjunturais. Primeiro, você tem a digestão do ciclo de endividamento das famílias, que não é feito da noite para o dia. Segundo, os estoques altos em vários setores. Terceiro, o setor privado é ciclotímico, ele travou um pouco o investimento. E aqui há fatores pontuais. Um pouco de perspectivas, uma visão de mais de curto prazo do setor empresarial. E, no plano do investimento público, a reorganização do Dnit, caiu um pouquinho o investimento.

Pouquinho?

Transportes está sendo recuperado. Esses fatores pontuais vão ser recuperados. Meus dados mais recentes do Finame já apontam uma recuperação na ponta.

Para quando?

Preciso ver ainda qual o ritmo disso, mas parou de cair e está embicando para cima, a venda de bens de capital na Finame. Vamos superar isso, as medidas estão tomadas.

Quando o sr. falou em dar oxigênio para a indústria, eu imaginei logo em hospital. O sr. colocaria a indústria na UTI ou numa unidade semiintensiva?

Esse negócio de hospital já não existe mais.

Mas o sr. falou que ela precisava de oxigênio para se manter viva.

Olha, o oxigênio você obtém tornando o ar mais puro e fazendo as pessoas aprenderem a respirar bem. Com aeróbica.

Então está na fase de reabilitação, fisioterapia?

Está longe [disso], tem um ou outro pequenininho na UTI ou querendo entrar, mas não estamos tendo nenhum problema. Problema eu tive em 2008 para 2009, aquilo que foi problema.

O sr. acha que tem de reduzir superávit primário para impulsionar investimento público?

Não, precisamos manter o superávit para garantir que o BC possa seguir reduzindo juros.

Comentários   

 
#1 Ricardo Carneiro 08-07-2012 10:19
A entrevista coloca pontos importantes relativos à correção da política macroeconômica, como o desalinhamento da taxa de câmbio e os juros muito elevados. Sugere também uma estratágia importante de crescimento via reindustrializa ção. Mas é pobre na discussão do papel do estado na redistribuição de renda. Desse ponto de vista a proposta de redução da carga tributária ao invés da mudança de sua composição é um retrocesso.

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Tags: BNDES, Luciano_Coutinho, Pessimismo_empresarial_trava_retomada

Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 16 julho 2012 às 0:43

A origem da expressão 'Plano', para o Estado

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Carlos Lessa

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A expressão “plano” esteve, assepticamente, livre de qualquer viés ideológico, até que, após a Revolução Comunista Soviética, foi utilizada como horizonte e guia político-econômico do Estado nacional. Ali teve início a formulação do I Plano Quinquenal Soviético e foi instalada uma equipe encarregada de planificar a trajetória futura da União Soviética. A partir desse momento, as expressões “plano” e “planificação” passaram a ser identificadas como o modo pelo qual o Estado socialista poderia dispensar as regras do jogo capitalista e atuar de forma organizada para a evolução da nova sociedade.

Em sentido amplo, propor fazer um plano nacional e instalar um processo de planificação marcavam uma posição de esquerda, e o debate ideológico passou a repudiar essas expressões como sínteses de uma prática hostil ao capitalismo, que buscavam a transformação e o desenvolvimento econômico de uma nova ordem social e política.

As imperfeições microeconômicas da economia de mercado já haviam sido mapeadas pela análise neoclássica. As visões teóricas de um monopólio bilateral entre as relações do capital patronal e o trabalho assalariado já insinuavam ajustes institucionais em direção ao que se denominou economia social de mercado. O receituário político-econômico da economia política clássica liberal inglesa e as derivações da teoria do equilíbrio geral neoclássico haviam feito evoluir da ideia de Estado gendarme, guardião de contratos e do livre jogo de mercado e decantado como paradigma liberal à figura do Estado mínimo, com os mais reduzidos instrumentos de atuação discriminatória. Houve um presidente chileno, Barros Lugo, que afirmou ser “muito fácil” seu cargo, pois os problemas ou eram auto-solucionáveis, ou não tinham solução e ele não tinha com o que se preocupar - e passou à história como nome de saboroso sanduíche local.

Como é sabido, as industrializações nacionais que se sucederam à Revolução Industrial no século XIX haviam recusado o corpo de princípios da economia liberal e praticado reformas institucionais, operado instrumentos discriminatórios, realizado subsídios e investimentos e ampliado, pragmaticamente, o âmbito e a profundidade das políticas públicas. Cometeram heresias e praticaram pecados mortais para o liberalismo de mercado. Contestaram, teoricamente, a capacidade da livre-economia de mercado de conduzi-los ao desenvolvimento industrial e de fortalecimento geopolítico. Assim fez a teoria da nacional economia sustentando o projeto industrializante nacional alemão; assim, o historicismo francês justificou a França de Napoleão e seu esforço de amplificação colonial. O Japão fez uma “reciclagem”, preservando o xintoísmo e atribuindo ao imperador – aceito como divino – o poder absoluto, implantador da Revolução Meiji.

A Rússia czarista aboliu a servidão e fomentou, pelo Estado, a instalação de núcleos industriais; o poder absoluto foi acionado em nome da preservação nacional russa. Entretanto, todos esses países, uma vez industrializados, abandonaram, ideologicamente, seus discursos pró- -industrialização como projeto nacional e passaram a defender, ideologicamente, os princípios da economia liberal. Chutaram, pragmaticamente, o andaime teórico anterior e, como potências, expandiram cosmicamente suas ambições geopolíticas.

A I Guerra Mundial desmoralizou o sonho da belle époque e deslocou o epicentro industrial da Inglaterra para os EUA, que se converteram em campeões do livre-mercado. A evolução da II Revolução Industrial, iniciada antes da I Guerra Mundial, foi pontilhada de desajustes monetários-fiscais que, como tremores sísmicos, antecederam o terremoto macroeconômico da Grande Crise de 1929 e mergulharam as potências nas preliminares de um segundo conflito mundial.

Do ponto de vista latinoamericano, o sonho de uma economia industrializada tinha ficado circunscrito a escassos pensadores. Entretanto, a filosofia alemã hegeliana e a economia nacional de List haviam se instalado no espaço universitário. No Brasil, houve a Escola de Recife; no Chile, com dois ou três anos de diferença, foi impresso o livro de List. Após a I Guerra Mundial, o romeno Manoilesco formulou a teoria da “indústria nascente” e de “sistema industrial”; seu livro foi impresso no Brasil em 1931 (dois anos após sua edição em romeno), por Roberto Simonsen, campeão do projeto de industrialização e liderança empresarial brasileira.

A filosofia positivista sublinhava a ideia da sociologia como o ápice da engenharia racional humana; teve enorme passagem pela América Latina, no final do século XIX e décadas iniciais do século XX. O sucesso do desenvolvimento decimonônico da economia norteamericana já havia gerado o discurso bolivariano, convocando a Iberoamérica a reproduzir a experiência das treze repúblicas.

Entretanto, foi a II Guerra Mundial que abriu caminho, na América Latina, para a ideia de planificação nacional como modo de operar a política econômica, segundo uma trajetória de crescimento e com vistas à transformação estrutural da economia nacional do país latinoamericano. Com temor da patrulha ideológica, a Cepal virou a referência crítica, a visão ricardiana do livre comércio liberal e da organização de um plano de investimentos público-privado, substituindo a expressão “planificação” pelo neologismo político-econômico “programação”.

O Brasil – que, com Getúlio Vargas, havia sido keynesiano antes de Keynes, que havia desenhado o sonho da industrialização desde matrizes positivistas até a literatura infantil de Monteiro Lobato foi quem apoiou, diplomaticamente, Prebish e a Cepal. A frustração com a não-inclusão do país no Plano Marshall leva o Brasil, nos anos 1950, a praticar, pragmaticamente, infrações frontais ao neoliberalismo, ao adotar, explicitamente, o Plano de Metas e consagrar a industrialização e a urbanização como núcleos estratégicos de um projeto nacional desenvolvimentista.

Da defesa varguista da economia do café no “terremoto” de 1929, até o projeto de Brasil-potência, o país fez crescer o PIB em torno de 7% ao ano.

Com a crise da dívida externa e a instalação do Estado de Direito da Constituição de 1988, houve um mergulho na hiperinflação e na desaceleração do crescimento. A partir de 1980, o Brasil mergulha na mediocridade macroeconômica. Há um repúdio ao sonho da industrialização nacional e incorporamos o neologismo “globalização”, como versão atualizada do neoliberalismo, agora sob hegemonia ideológica do epicentro dos EUA. O Brasil passou a não discutir projeto nacional e afirmou que, se integrando à economia mundial, chegaria, à la Pangloss, ao melhor dos mundos possíveis.

A vitória norteamericana na Guerra Fria, com a queda do Muro de Berlin, marca a hegemonia e a superimposição político- -econômica do Consenso de Washington. No Brasil, abandonamos a discussão de desenvolvimento alternativo apoiado no mercado interno e nos propusemos a ser “celeiro do mundo” (apesar da fome dos brasileiros) e fornecedores de matérias primas para as potências industrializadas e para a China em industrialização. No entanto, a crise mundial iniciada em 2008 promete vicissitudes que recolocarão o debate sobre o futuro brasileiro. Necessariamente, será a ideia de planejar a reativação de um projeto nacional brasileiro. O Estado terá de ser reformado e reequipado com instrumentos de ação discriminatória, muitos dos quais abriu mão em nome da “integração competitiva” à globalização e de uma privatização desnacionalizante do sistema produtivo.

___________________________________________________________________________________
Carlos Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). É membro do Conselho de Orientação do Ipea.

 

 

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