Lendo esse título o leitor deve estar se perguntando:"O que é que o amor tem a ver com a política?". Tudo caro leitor. Exatamente tudo. Pois tudo aquilo que vale a pena fazer vale a pena fazer com amor, inclusive política. Só assim as obras terão o seu devido valor. O político que não ama o que faz nunca o fará bem feito, e é por isso que temos muitas coisas que não vão bem.
Isso ocorre porque, infelizmente, há cada vez mais um desprezo pela vocação, que é justamente de onde viria o amor pela profissão e, por derivação, as grandes realizações. É comum hoje em dia a idolatria pelos formalismos, diplomas, títulos e aparências; coisas que constituem inócuos artificialismos da vida moderna e induzem o povo a procurar mais a eloqüência do que a verdade. Com esse caminhar molda-se a sociedade de forma desastrosa.
É certo que essa preterição da vocação, que pode ser considerada uma doença social que inibe o vocacionado e atrai pessoas estranhas às profissões, não ataca apenas o meio político. Por justiça, temos que reconhecer que ela instalou-se em todos os setores da nossa sociedade, e por isso temos médicos que seriam ótimos engenheiros, professores que seriam ótimos psicólogos, pedreiros que seriam ótimos físicos, etc. Assim, do ponto de vista vocacional, o provérbio "cada macaco no seu galho" foi subvertido. No que pertine ao nosso tema, as políticas públicas por melhor que sejam implementadas, se não forem tocadas por quem as ama, por pessoas realmente vocacionadas, dificilmente darão certo. Eu pelo menos não acredito em quem não gosta do que faz! Esperar uma coisa boa de quem não tem vocação para o que faz é como esperar nascer laranja de um pé de chuchu.
Vocação é o chamado do coração para um determinado ofício. É o querer realizar as coisas mais por prazer do que por trabalho. São essas pessoas - que respeitam e seguem a vontade do coração - que fazem a diferença na sociedade. Quer um exemplo disso? No Brasil, antes de Oscar Niemeyer construir prédios, estes eram apenas gigantescos caixotes de concreto frios e cinzentos com algumas portas e janelas espalhadas por sua superfície. Agora, olhar para uma obra de Niemeyer é perceber que construir prédios é moldar o concreto ao homem e não o homem ao concreto.
Na política também dá-se o mesmo. Não foi o homem feito para ela, mas ela para o homem, por isso ela deve ser moldada de acordo com os interesses do povo, o que, aliás, constitui pressuposto de uma democracia que ainda não vivemos.
Estamos experimentando na política brasileira um período pré alguma coisa, a exemplo do período pré-Niemeyer na arquitetura; e assim será até que pessoas realmente vocacionadas ouçam o chamado dos seus corações, ergam-se do meio da sociedade e mudem a rota das coisas. Enquanto isso não acontece não só o povo, mas elas próprias, cumprem a sentença de Cícero, o grande orador do parlamento romano: "Se os homens de talento e de caráter se mantiverem distantes da política, não poderão reclamar contra o fato de serem obrigados a obedecerem autoridades de pouco talento e de pouco caráter."
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