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Em 1997, Alvin Toffler, guru do marketing mundial, lançou o livro a Terceira Onda. Sucesso no mundo todo, o livro que tenho em mãos se encontra na 29ª edição. Toffler faz uma análise precisa e profunda dos movimentos sociais e econômicos que moldaram as sociedades, passando pela cultura, trabalho, guerras, até o sexo. A Primeira Onda foi a Agricultura, a Segunda Onda, a Era Industrial, e a Terceira Onda, a Era da Informação.

Dias atrás fui entrevistado pela estudante de jornalismo Taís Fransciscon, sobre os filmes brasileiros que tinham como pano de fundo a Ditadura Militar. Entre outras coisas, observei que falta ao cinema mostrar o que realmente significou para o Brasil viver 25 anos sobre o regime dos generais. E a resposta é: por conta da ditadura, o Brasil ainda não entrou na Terceira Onda.

O processo de industrialização no Brasil começou tardiamente se comparado com países desenvolvidos. Nos EUA o ápice do industrialismo se deu por volta de 1955 e começou seu declínio na década de 70. No Brasil foi exatamente o contrário. O início do industrialismo se deu com Getúlio Vargas (1950-1954) e teve seu ápice na década de 70 com o “milagre econômico” já no governo militar.

A industrialização foi um processo que dividiu o mundo entre produtores e consumidores. Formou as grandes cidades, alterou o núcleo familiar, criou as escolas, os asilos de velhos, “o industrialismo foi mais do que chaminés e linhas de montagem. Foi um sistema social rico, multiforme, que tocou todos os aspectos da vida humana e atacou todas as feições do passado” (Toffler). Para os países industrializados esta economia trouxe grandes benefícios. A educação, a saúde, aumento da expectativa de vida e o bem-estar social foram distribuídos de forma mais equânime entre o chão da fábrica.

Porém, no Brasil alguns fatos importantes marcaram nosso processo de industrialização, inclusive sua interrupção pós-regime militar. Na década de 70, os países desenvolvidos começaram a reconhecer os sinais da nova economia, informacional/global e o industrialismo começava a dar sinais de cansaço. O fato que marcou esta época foi a crise mundial do petróleo. No Brasil, a política de expansão da indústria promovida pelos militares sentia os efeitos das crises mundiais e os militares entenderam que seria hora de deixar o governo, afinal, o “perigo do comunismo” não existia mais e em 1985 entregam o governo para os civis. Exatamente aí começam os problemas do Brasil. Os governantes que assumiram a responsabilidade de levar adiante o processo tardio de industrialização brasileiro e distribuir seus dividendos à população quiseram dar um salto de mais de 20 anos e acompanhar o mundo em sua política neoliberal. O processo industrial brasileiro ainda não tinha se completado e já foi desfacelado pela política do Estado mínimo e o bem-estar social entregue ao “mercado”. Porém, está política só podia ser aplicado em países onde os benefícios da Era Industrial fora distribuído a uma grande parcela da população, caso contrário, o mercado seria pequeno e muitos ficariam à margem dele. Foi exatamente o caso brasileiro.

Sarney, Collor, Itamar e FHC não entenderam, ou não quiseram entender, e se voltar às características da Era industrial e promover o bem-estar social pela mão do Estado. Foi preciso um metalúrgico, o mais perfeito estereótipo do homem forjado na Era Industrial, assumir a Presidência do país para que o Brasil completasse o ciclo industrial. Todos os índices apresentados pela economia brasileira atual já fora experimentado pelas economias desenvolvidas no passado industrial. Nosso atraso é gigantesco.

Agora, duas ideologias políticas concorrem para liderar o país no século XXI. O que está em jogo e a transição para a sociedade informacional (Dilma) ou novamente um salto (Serra) na tentativa de se acompanhar as tendências mundiais da economia e da globalização.

Curioso é que um lado (Serra) acusa o outro (Lula) de se beneficiar da base criada pelo Plano Real para conseguir implantar sua política econômica. e caso vença, Serra certamente será acusado por Lula de rceber um Brasil com melhor distribuição de renda e menos pessoas na linha da pobreza, onde o mercado poderá ter algum sucesso no comando da economia.

Acontece que não podemos dar um salto novamente. O processo de passagem da Era Industrial para a Era da Informação tem de ser gradual e constante. A questão política mais importante, “não é quem controla os últimos dias da sociedade industrial, mas quem modela a nova civilização que surgirá rapidamente para substituí-la” (Toffler).

A segunda onda durou 300 anos e ainda está presente em muitas economias. A Terceira Onda está se chocando com a cultura gerada pela industrialização rompendo padrões estruturais, gerenciais, familiares e moldando um novo agir, uma nova forma de ver o mundo e uma nova forma de se viver neste novo mundo, onde a tecnologia da informação tem um papel primordial, assim como a maquina a vapor e o tear na Segunda Onda. Mas apesar desta tecnologia informacional estar disponível para alguns brasileiros, ainda há uma grande desigualdade tecnológica no país e a maioria da população ainda não teve contato com a Terceira Onda.

Portanto, este foi o grande legado do regime militar no Brasil. Fechar-nos para as transformações sociais, democráticas e econômicas da nova era.

Alvin Toffler. A Terceira Onda: a morte do industrialismo e o nascimento de uma nova civilização. Record, 2007.

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