O ano de 2008 trouxe uma novidade muito interessante: o número de pessoas que buscam informação via internet passou a ser maior do que o número de pessoas que buscam informação via jornal. Esse dado é importantíssimo porque pode significar um abalo no monopólio da comunicação, e que se tem revelado, na verdade, o monopólio do pensamento.
II
A cada notícia que lemos é necessário perguntar, sempre: a quem interessa? Isso com relação a taxas de juros, isso com relação a investimentos assinalados como prioritários, isso com relação a matérias sobre “déficit da previdência social”, e também em relação a matérias sobre “desonerar folhas de pagamento”, e por aí afora. É preciso, sempre, que, ao ler a matéria, perguntemos: a quem serve?
III
Publiquei, abaixo, duas matérias importantes: sabotagem em Alcântara e a atuação da Máfia no lixo da Itália, literalmente. São matérias que raramente são publicadas. Por acaso, em um mesmo fim de semana houve a publicação das duas.
IV
Pois bem: a Varig quebrou. A quem interessa? Em primeiro lugar, interessa às companhias internacionais. Isso estamos vendo agora: a anunciada “abertura dos céus brasileiros”. A rigor, só temos, hoje, uma companhia brasileira voando para a Europa. A tendência é que até mesmo essa companhia pare de voar para o exterior. Na época da Varig, o Brasil tinha rotas sólidas, firmadas há muitos anos. E essa mesma companhia que hoje voa para a Europa achou que se beneficiaria da quebra da Varig. No longo prazo, não. No longo prazo, a quebra da Varig beneficiará exclusivamente as companhias estrangeiras.
V
Ou seja, quem abriu fogo aqui dentro, quem torceu pela quebra da Varig, não será beneficiado pela quebra da companhia. As companhias internacionais é que ocuparão esse espaço.
VI
Ou seja, quem perdeu foi O BRASIL. Mas não perdeu só aí. “Exportamos”, à época, centenas de pilotos para outros países. Mandamos para outros lugares do mundo porque não havia mais mercado de trabalho aqui dentro. Só que piloto de jato é reserva da força aérea. Então, o Brasil se enfraquece estratégica e militarmente cada vez que “exporta” pilotos para outros países, ainda que sejam pilotos civis.
VII
A tomada dos céus brasileiros pelas companhias estrangeiras significa, em primeiro lugar, perda econômica. Mandaremos dólares para fora. Em segundo lugar, é perda estratégica: mandamos pilotos para fora. Em terceiro lugar, é perda de toda a economia nacional. O que se move, nesse caso, é a economia externa, a dos países que prestarão serviços aqui dentro. Gerarão empregos lá fora, faturarão lá fora.
VIII
A lógica é exatamente a mesma que leva à venda de bacias petrolíferas. É a lógica da perda de riquezas nacionais.
IX
Não estamos aqui a falar de um nacionalismo retrógrado, jurássico. Em primeiro lugar, porque esses apelidos de “retrógrado” e “jurássico” vieram, exatamente, desses que tinham interesse em faturar migalhas do capital estrangeiro. Em segundo lugar, porque estamos sendo VÍTIMAS DO NACIONALISMO DOS OUTROS. A Espanha - que até pouco tempo era um país atrasado - financia pesadamente suas empresas para que venham para cá, para a América Latina, para o Brasil. Os EUA protegem seus mercados. A Europa toda impõe restrições tarifárias e “sanitárias”, sempre protegendo seus mercados, não raro inventando motivos para erguer barreiras comerciais e manter subsídios. A chamada “Rodada de Doha” é o exemplo mais vivo disso tudo.
X
Ou seja, nacionalismo é uma coisa “jurássica e atrasada” para nós, só. Os países da Europa são absolutamente nacionalistas; os EUA são extremamente nacionalistas. Aqui, no entanto, continuamos papagaiando um discurso estúpido, superficial, de “abertura de mercados” sem regras, quando nos tornamos vítimas do banditismo internacional representado, inclusive, pelos “hedge funds”, pela irresponsabilidade absoluta que tomou conta do mercado financeiro internacional.
XI
A questão não é ser contra ou a favor da globalização. A chamada globalização é antiga, começou com Marco Polo. A discussão é outra: é “de que forma ingressamos na globalização?”. A Espanha escolheu entrar soberanamente, apoiada pelos bilhões de Euros que recebeu da comunidade econômica européia. Os demais países vêem a globalização planejando sua inserção, ampliando mercados. Aí estão a China e a Índia. Aqui, no entanto, a globalização - à exceção de 2 ou 3 empresas (Vale, Gerdau) significou a abertura dos portos às nações “muy amigas”, sem contrapartida.
XII
Nosso sistema financeiro, por exemplo, foi em grande parte internacionalizado (Santander, HSBC, ABN-Amro), sem que os bancos brasileiros ganhassem posições na Espanha, na Inglaterra, na Holanda. Ou seja, foi via de mão única. E o mesmo aconteceu com as telefônicas. Qual o espaço que ganhamos na Itália, permitindo a instalação da TIM aqui dentro? E da Parmalat, sob pesadas acusações lá na Itália? Qual o espaço que ganhamos na Espanha, permitindo a instalação da Telefônica aqui? Houve reciprocidade?
XIII
Há uma lógica, portanto, em deixar a Varig quebrar, em vender bacias petrolíferas, em lançar ações da Petrobrás na Bolsa de Nova Iorque. É a mesma lógica que direciona o dinheiro dos Estado, dos impostos, o dinheiro do povo, para o pagamento de juros da dívida interna. É a lógica de impedir o desenvolvimento interno, de impedir a melhoria dos portos, de impedir que o Brasil tenha a alternativa de ferrovias, que saia da dependência dos caminhões para transporte de sua produção. É a lógica que nos torna dependentes de sementes transgênicas, do veneno necessário a essas sementes, fabricado pelas multinacionais, do pagamento de roylaties às multinacionais quando da colheita. É exatamente a mesma lógica.
XIV
Eles, os beneficiários dessa lógica, é que enxergam que há uma estratégia única. Nós, não. Cada um de nós vê, isoladamente, a questão da Varig; a questão das bacias petrolíferas; o falso “déficit” da previdência social; o absurdo das taxas de juros; a questão dos transgênicos. E aí, como diz aquela metáfora, nos tornamos um bando de cegos que, apalpando, tentam descrever o que é um elefante.
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