“À la” Tarantino
É curioso que o espectro dos anos 60 tenha voltado a pairar sobre o panorama. Gil ele mesmo já era um sinal disso, inseparável dos grandes temas culturais disparados pela música popular do período
José Miguel Wisnik
Quando fui convidado a dirigir a Funarte, na gestão de Gilberto Gil, nem por um segundo pensei em aceitar. Não tenho vocação para funções administrativas, me perco nos emaranhados técnico-burocráticos, e minhas ambições e desejos só se reconhecem na escrita, no ensino e na música. Não tenho nenhuma intimidade com os complicados lances da gestão pública. O fato chamativo para mim, ao voltar ao assunto, é que a passagem do bastão da Cultura do governo Lula para o governo Dilma tem produzido fagulhas, faíscas, fumaça e princípios de incêndio. Nem sempre é fácil saber exatamente onde está o fogo. Entre o realinhamento mais ortodoxo das demandas internas do PT, depois de um estado de exceção política dado pela escolha heterodoxa de Gil, e a definição de um perfil próprio da ministra Ana de Hollanda, que ainda está em andamento, questões controvertidas e, mais que isso, recalcadas, vieram à tona.
É curioso que o espectro dos anos 60 tenha voltado a pairar sobre o panorama. Gil ele mesmo já era um sinal disso, inseparável dos grandes temas culturais disparados pela música popular do período. Na simbologia da escolha de Ana de Hollanda conta certamente, além do fato de ser mulher, e do seu currículo de esquerda, a mística do nome Buarque de Hollanda. O seu vínculo com a defesa do formato já estabelecido para o Direito Autoral contra as inovações propostas por Gil e Juca veio, de quebra, como um indicador sintomático das tensões latentes entre o MinC anterior e setores musicais organizados em torno da defesa do formato atual do Ecad e do combate sem tréguas à pirataria (que tem não poucas analogias com as contradições do combate às drogas).
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